Giro da semana 22/11 a 29/11

Gente, o ano está acabando. Tanto está que a estafa bateu e eu me deu uma semana de folga. Na ocasião, disse para mim mesmo que o giro da semana retornaria como um giro da quinzena, pegando os acontecimentos mais importantes da cultura nesse período em que eu estava ausente… então…

É fim de ano gente, não vamos fingir que estamos exatamente nos importando com algo que não seja o décimo-terceiro salário e a vacina do Covid. Ah, que essa venha logo por que já cheguei no meu limite de privações. Tá difícil comprar ração e areia pros gatos.

Mas vocês não vieram até aqui para ler minhas pitangas choradas, então…

Sônia Braga e Fernanda Montenegro


Numa mesma semana, duas gigantes da dramaturgia e do cinema brasileiro tiveram odes de reconhecimento. Sônia Braga é uma das maiores atrizes e atores do cinema no século 21 para o jornal “New York Times”. Única brasileira da lista de 25 nomes publicada nesta quarta-feira (25), ela aparece na 24ª colocação. Apesar de estar fora da lista, Fernanda Montenegro foi tidada essa semana por Glenn Close. A atriz falou sobre o Oscar de 1999 quando foi questionada sobre como encara a opinião dos outros.

“Honestamente, eu nunca entendi como é possível comparar atuações. Eu lembro aquele ano em que Gwyneth Paltrow ganhou daquela atriz incrível de ‘Central do Brasil.’ Eu pensei o quê? Isso não faz sentido”, afirmou a atriz americana.

Dias depois, em uma entrevista para Pedro Bial, Montenegro deixou correr um rio de classe. Apesar dos elogios de Glenn Close, Fernanda Montenegro disse que teria dado a estatueta para outra atriz. “É uma avaliação dela. Eu, por exemplo, teria dado o prêmio para Blanchett. Ela fez duas Elizabeth naquele ano extraordinárias. Duas. Não foi um filme, foram dois filmes e de uma forma maravilhosa. Não é que meu trabalho não seja respeitado, mas eu teria votado na Blanchett”, disse.

O Troféu HQMix, o Oscar dos quadrinhos, divulgou nesta quinta (26), os vencedores da sua 32ª edição.

A cerimônia virtual do prêmio acontecerá no dia 12 de dezembro, às 18h, com apresentação de Serginho Groisman, padrinho do evento, e da dupla Gual e Jal, criadores do troféu. O evento será transmitido pelo canal do Sesc no YouTube. No dia da premiação, serão conhecidos ainda os vencedores das categorias Novo talento desenhista e Novo talento roteirista, além de uma apresentação ao homenageado desta edição, Miguel Paiva, cuja sua personagem, Radical Chic, foi a escolhida para a escultura do troféu deste ano.

Particularmente, algumas coisas me chamam a atenção – mesmo que eu esteja afastado do mundo dos quadrinhos há um tempo. “O Eternauta 1969” recebendo o prémio de edição especial estrangeira é uma ótima notícia. Mais gente aqui no Brasil deveria ler esse primor. O mesmo vale pra “Angola Janga”. Quero mandar um salve para Fefê Torquato pelo prêmio de roteirista e expressar meu carinho também por toda a equipe responsável por “Gibi de Menininha 2”

Para conferir a lista dos vencedores, acesse aqui.

Assista a Premiação do Prêmio Jabuti

Em Romance Literário, o ganhador foi “Torto arado” (Todavia), de Itamar Vieira Jr. Uma mulher no escuro (Companhia das Letras), de Raphael Montes, venceu a categoria Romance de Entretenimento, novidade desta edição. Em Conto, o primeiro lugar ficou com Urubus (Confraria do Vento), de Carla Bessa. Em Crônica, Uma furtiva lágrima (Record), de Nélida Piñon.

A categoria História em Quadrinhos ficou para Silvestre¹ (DarkSide), de Wagner Willian Menezes de Araújo. Da minha janela (Companhia das Letrinhas), de Otávio Cesar Jr., ficou com o troféu na categoria Infantil. Em Juvenil, o vencedor foi Palmares de Zumbi (Nemo / Autêntica), de Leonardo Chalub.

Notas:

1- Veja a resenha de Silvestre pela brilhante análise do meu amigo, Alexandre Linck no canal do Quadrinhos na Sarjeta.

Poesia – Dois poemas sobre um mesmo tema

Quero erguer um poema sólido
como um monumento
para que quando vier
do leste dos oceanos
um vento quente e úmido
beije a rocha seca e
insípida do meu poema
e nele se infiltre
para mostrar que não
há forma sacra que
escape dos movimentos
vivos da Terra

E que meu colosso caia
e se desmanche em outros
pequeninhos

Que são de pequenas
pedras que se faz
construção

________

O tempo de fazer colunas se foi
e os monumentos de hoje são
feitos de ar e água e das muitas
plantas que crescem pelas rochas
afora eu sei menina que te fiz uma
torre e que ela parecia uma prisão
não foi por crueldade eu te juro
estendo para o céus as mãos
rezando para que seu voo seja
suave e que encontre noutra paragem
aquilo que sempre quis

Eu sei que achará um lugar
muito melhor que minha
pasárgada mas eu também
juro que quando eu estiver na
verdadeira Pasárgada lá eu
vou ficar sem ter nenhuma
lembrança para me reclamar

Diário 23-11-2020 (resenha de bônus)

Ontem eu estava satisfeito com o ritmo de finalização do próximo livro e decidi procurar por imagens gratuitas e em domínio público para compor a capa.

Encontrei o seguinte:

Trata-se de uma conhecida série de quadros do pintor suíço Arnold Böcklin. Böcklin criou múltiplas versões do mesmo quadro, no qual é representado um remador e uma figura branca sobre um pequeno barco, cruzando uma ampla extensão de água em direção a uma ilha rochosa. O objeto que acompanha as figuras no barco se identificam geralmente como um ataúde, e a figura branca com Caronte, o barqueiro que na mitologia clássica conduzia as almas ao Hades.

Acontece que ao pesquisar descobri também uma sinfonia inspirada neste quadro. Não sendo a pessoa mais capaz para fazer uma análise da música, pedi a meu amigo Lucas “Luckan” Estêvão que me ajudasse. O que ele me enviou era mais do que eu poderia pedir.

Não me surpreende ver Sergei Rachmaninov, um compositor do século 20, ser comparado com os grandes titãs do passado.

Acho incrível a forma como ela usa os instrumentos periféricos para criar uma atmosfera por trás da melodia principal que, as vezes, se torna mais intrincada e rica do que a própria melodia principal. Sobre essa peça em si, em específico, é interessante ver como ele disserta o assunto proposto pelo título, como se ele fosse o próprio Charon, guiando o ouvinte pelo rio stix.

O primeiro ato é, em partes iguais, fúnebre e esperançoso, como uma criança que aprende sobre a morte, mas também aprende sobre o ciclo da vida e a beleza natural da mortalidade. O segundo ato é inteiramente fúnebre, como alguém que vivencia a morte de um ente querido ou amigo próximo, e não consegue entender o propósito da mortalidade além de vê-la como um instrumento de tortura para aqueles que ficam para trás. O terceiro ato é o exato oposto, e é um grande contraste com o resto da peça, pois se torna jovial e elegante, cheio de esperança e beleza, como um filósofo ou poeta que usa suas experiências com a morte para torná-la algo mais palatável, agradável, bom.

Neste ponto é um dos momentos em que o contraste da melodia principal e o acompanhamento se tornam mais marcantes, pois por mais que a melodia principal seja jovial e quase alegre, o acompanhamento mantem seu tom fúnebre e austero, o que culmina no quarto e último ato da peça, o caos de emoções que é o inato medo da morte que todos nós sentimos como seres capazes de ciência. A peça vai de pianno à fortíssimo de volta a pianno várias vezes neste ato, até finalmente se concluir em resignação, uma aceitação forçada do inevitável, um último suspiro, uma nota suspensa e fim. Como se nosso personagem finalmente chegasse ao fim de sua vida.

E o que aconteceu com isso? Fiquei tão tocado que resolvi referenciar a sinfonia no ritmo do texto, de modo que parece que meu trabalho apenas começou.

Giro da semana 09/11 a 15/11

Em uma semana turbulenta – já faz tanto tempo que todas são -, o ambiente cultural permaneceu morno, seguindo seu caminho como um rio.

Resolvi substituir um meme sobre as patifarias políticas da semana por um meme intelectual metalinguistico

Sem público, Petra Belas Artes tem reabertura prejudicada e deve fechar

Notícia do caderno de cultura do Estadão repercutiu uma postagem que  André Sturm, o diretor do Petra Belas Artes, escreveu neste sábado (14/11) no Facebook. Segundo Sturm, o cinema que administra deve voltar a fechar.

Não se trata no entanto, do fim do espaço, mas sim que na ausência de público, o espaço vai aproveitar para manter seus funcionários sendo pagos pelo governo em dezembro. Depois vamos ver….
A maior tristeza nisso tudo, não é pensar em como o espaço está sendo gerido, mas perceber que Sturm realmente considera o espaço “muito mais seguro que um mercado, que uma agência bancária…”(sic)

Para ele, tudo é uma questão de imagem: “Infelizmente, os cinemas ficaram (fechados) dois meses a mais que os outros locais na cidade. Isso causou a impressão de que estes são os locais mais perigosos.” Um levantamento da Info Tracker, ferramenta desenvolvida pela USP e Unesp para monitorar a pandemia, que apontou aumento de, aproximadamente, 50% no número de casos suspeitos de covid-19 entre 1º de agosto e 5 de novembro na Grande São Paulo e na capital paulista. 

No último final de semana, o Petra Belas Artes teve 8% do público em comparação com o mesmo período de 2019, aponta o Sturm. “Não dá para manter aberto. Como em dezembro ainda é possível suspender os salários e a equipe receber do governo, fecharemos o Belas neste mês”, completou.

El país – Abstinência de álcool agravou psicose de Van Gogh

“Eu realmente não me importo”, diz Hayao Miyazaki

Fonte: Jovem Nerd

Alguém foi incomodar o bem velhinho japonês enquanto ele varria sua calçada pra atiçar um espirito de porco competidor entre as produções japonesas. Para entender, recentemente estreou nos cinemas japoneses o filme “Demon Slayer – Kimetsu no Yaiba – The Movie: Mugen Train”, que se revelouum enorme sucesso e deve superar a arrecadação total de “A Viagem de Chihiro” nos próximos dias.

A esta aparvalhação Miyazaki respondeu:

“Bem, isso não me preocupa. É melhor para a harmonia no estúdio se a bilheteria tiver um bom retorno e que isso, aquilo e aquilo outro não seja realmente uma preocupação. É melhor trabalhar o máximo possível.”

Além da demonstração de indiferença para com a possibilidade de Demon Slayer ultrapassar o seu premiado título, Miyazaki também revelou não ter visto o filme.

“Eu não assisti. Eu também não assisto à maioria das outras coisas. Eu não vejo TV e não assisto a filmes. Eu sou apenas um velhote aposentado pegando lixo. Eu realmente não me importo com isso. Porque sempre há inflação neste mundo. Eu tenho que pegar o lixo…”

Por fim, o tabloide questionou o diretor sobre o seu próximo trabalho, a animação “How Do You Live?“, o filme que marcará a volta de Hayao Miyazaki de sua aposentadoria. Ele apenas respondeu “Estou fazendo. Eu estou fazendo isso como um aposentado”, e pediu para que a publicação perguntasse à Toho, a distribuidora responsável, sobre o projeto. Podemos julgar o velhinho? EU faria a mesma coisa.

Prêmio Aberst divulga seus vencedores

Nesta edição do prêmio escolheu a obra Noir carnavalesco, de Ian Fraser, como a vencedora da categoria Narrativa longa policial; e em Narrativa curta policial o vencedor foi O assassinato de Cláudio Manuel da Costa, de Jean Pierre Chauvin. Em Narrativa curta de terror, Alexandre Braoios foi premiado com o livro Um conto sem fim; e em Quadrinhos venceu Found Footage, de Marvin Rodrigues. Já a escritora Iza Artagão foi escolhida como Autora revelação desta edição e Vera Carvalho Assumpção teve o reconhecimento pelo conjunto da obra. A lista completa dos vencedores você confere aqui.

Prêmio Machado DarkSide anuncia vencedores

CATEGORIAS

Romance/Contos // Porco de Raça, por Bruno Ribeiro
Uma distopia humana, sombria, visceral, potente, violenta, e repleta de horror. Na obra, acompanhamos um professor negro, falido, preso a uma cadeia de acontecimentos inescapáveis que o levam a uma jornada rumo a própria degradação física e psicológica, a partir do momento em que é capturado, confinado e obrigado a fazer parte de um ringue de lutadores formado por párias sociais digladiando-se a gosto de espectadores da alta social.

Bruno Ribeiro (Campina Grande, PE) funde e distorce vários gêneros e subgêneros — da ficção pulp ao revisionismo histórico —, compondo um enredo que combina entretenimento com crítica social dura. Em meio a esse mapa movediço de gore, niilismo e visões estranhas, ainda oferece uma abordagem muito íntima e complexa sobre ancestralidade, legado, apagamento e racismo.

Quadrinhos // Aurora, por Rafael Calça & Diox
Uma graphic novel sensível e emocionante que mostra as batalhas e conquistas de três gerações de mulheres de uma família. Conduzidas pela força e luta da avó, Aurora, que trabalha como empregada doméstica desde os 10 anos de idade, a história é feita de sorrisos, dores e dramas que transformarão os leitores de maneira poderosa, e foi inspirada nas jornadas pessoais das avós, mães e tias dos quadrinistas Rafael Calça e Diox (São Paulo, SP), que também se dedicaram arduamente para que os filhos pudessem estudar e conquistar uma vida melhor.

Outras Narrativas // Dores do Parto, por Jessica Gonzatto
O projeto vencedor da categoria Outras Narrativas é o roteiro do curta-metragem de horror Dores do Parto, de Jessica Gonzatto (São Paulo, SP). Com uma ambientação poderosa e personagens marcadas pelas decisões tomadas no passado, o curta aborda o lado sombrio da maternidade com elementos metafóricos e sensoriais para contar uma história de egoísmo, assassinato e manifestação da psique.

Desenvolvimento de Projetos // Imaginários Pluriversais, por Isa e Pétala Souza
As irmãs Isa e Pétala Souza (São Paulo, SP), criadoras de conteúdo no Instagram @afrofuturas, pautadas na decolonialidade em contextos de raça, gênero, classe e representatividade e articuladoras do movimento #LeiaRepresentatividade, são as contempladas com a mentoria para expandir Imaginários Pluriversais: Narrativas Representativas na Ficção, um estudo que traz um panorama teórico para organizar e amadurecer os significados dos aspectos da representatividade na criação literária, construindo diálogos socialmente transformadores através da literatura.

Não Ficção // O Monstro no Cinema, por Alex Barbosa
Alex Barbosa (Itabuna, BA), doutor em Cinema, Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ apresentou um estudo aprofundado da figura do monstro no audiovisual, de suas origens ao cinema contemporâneo. A obra coloca a DarkSide ainda mais próxima do ambiente acadêmico que vem moldando novos profissionais fundamentais para a formação de uma nova geração de cineastas brasileiros de horror.

Menção Honrosa para Influenciadores Literários
A DarkSide® Books e seus parceiros reconhecem a enorme importância de todos os influenciadores literários para o desenvolvimento da nova geração de leitores, e o 1º prêmio machado darkside contou com uma categoria especial para homenagear estes profissionais que ajudam a propagar o amor pelos livros.

A primeira edição do prêmio recebeu a inscrição de 240 influenciadores espalhados por todos os estados do país e a Comissão Avaliadora selecionou os 30 perfis inscritos mais atuantes para que o público pudesse escolher os seus favoritos. De 15 de outubro e 10 de novembro de 2020, os 30 finalistas da categoria receberam mais de 18 mil votos.

A Menção Honrosa do 1º prêmio machado darkside vai para: Adriana Cecchi, a Redatora de Merda; Milho Wonka e Lana Burns, do canal Freak TV; Pedro Pacífico, o @Book.ster do Instagram; Lucas Barros, do canal Fala, Lucas!; e Dayrealt Azevedo, do perfil @FunkeirosCults, no Instagram. Os 5 influenciadores celebrados com a Menção Honrosa receberão um troféu do 1º prêmio machado darkside e uma surpresa caveirosa.

A segunda edição do Prêmio Machado DarkSide ainda não tem data para acontecer, mas está confirmada para o ano de 2021. Você pode conferir todos os ganhadores no site premiomachado.com.br.

Obituário – Morre Cadu Barcellos, assassinado no Rio

O cineasta Cadu Barcellos, de 34 anos, foi morto a facadas na madrugada desta terça-feira (10) no Rio. Ele foi atacado na esquina da Avenida Presidente Vargas com a Rua Uruguaiana, no Centro.

Na direção do longa “Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos”, Cadu assinou o episódio “Deixa voar”. O filme foi exibido no Festival de Cannes 2010. Em 2012, Cadu também integrou a equipe que escreveu e dirigiu o filme “5x Pacificação”.

Além de ser assistente de direção de “Greg News”, programa comandado por Gregorio Duvivier, Cadu também era diretor artístico do grupo No Lance.

Ele ainda participou da equipe de pesquisa do documentário “Favela Gay” (2014) e foi assistente de direção do canal Porta dos Fundos.

Folha de São Paulo – Centenário da autora Ruth Guimarães reaviva obra no limite entre erudito e popular

Obituário – Morre aos 90 anos Aldo Tambellini

Morreu na última quinta (12/11) a artista radical Aldo Tabellini. Segundo sua esposa, a morte ocorreu em decorrência de complicações após uma cirurgia. O artista, famoso pelo uso da cor preta em suas experimentações fotográficas e em vídeo, também era performer, poeta e ativista antiracismo.

Poema – Para um gato morto

Queria um banquete o
prisioneiro moribundo
Mas feriram-no a língua
para que do prazer
não provasse o fruto

Pediu um gole d’água
com os olhos mudos
Mas no reflexo da taça
não reconhecia mais
seu rosto
roto
encardido
sujo

Foi aos seus
e os seus não
o receberam
E sentiu-se
culpado por citar
o Santo Justo

No fim
os olhos
já tão pouco
úmidos

Viram a chuva e
refletiram só
rancor

Diário 10-11-2020 (um adendo)

Fui ao centro pra entrevista, em pouco mais de uma hora vi nove ambulâncias em emergência. No metrô, pessoas retiravam a máscara e nas ruas, descuidados me olhavam com ódio.

Meu gatinho não resistiu. Vou enterrar o corpo amanhã. Nunca enterrei um gato, mas a perda do bichinho me faz lembrar de quando era criança. Mas uma criança não sentiria o peso da culpa como estou sentindo. Mais do que a dor da perda, o que sinto hoje, quando olho para o mundo e para minha vida, é a dor da falha.

Artigo – Os autômatos de Scott

Ou uma banana para os universos compartilhados

Ridley Scott é um cineasta que merece atenção. Primeiro por que é um dos diretores mais talentosos da sua geração e depois por que costuma dar pouca atenção para aquilo que o mercado ou os fãs querem. Claro, isso gera bombas monumentais como “Alien: Covenant” mas também primores como “Blade Runner 2049”.

Easter egg de Prometheus relaciona franquia Alien ao filme Blade Runner

Mas algo que tem confundido muito os espectadores que acompanham a carreira de Scott é: São estes filmes conectados? A dúvida é justificável. A franquia Alien sempre teve a sombra de um crossover pairando sobre si, concretizado numa bobagem de filmes B em 2004 e vilipendiado mais do que merecia numa sequência em 2007.

Acontece que quando Scott reassumiu a franquia em 2012, ele queria realemente ter o controle sobre tudo. O fãs não se importavam que ele ignorasse o terceiro e quarto filmes da franquia, mas Scott tinha duas pedras em seu sapato. A sequencia feita por James Cameron – que rivaliza com o filme original para fãs e critica – e o espirito do crossover que os filmes mequetrefes não puderam aplacar.

É curioso que certa vez, em uma entrevista para o Digital Spy sobre filmes de super herói, Scott disse que queria continuar fazendo filmes inteligentes. Ele, na ocasião disse que está preocupado com o futuro do cinema como um todo e com a contribuição dos filmes de super-heróis para ele. Scott disse que “como cinema são muito ruins”. É o mais próximo que pude encontrar de Scott comentando sobre universos compartilhados, e é indireta. Era 2017, cinco anos o separavam do lançamento de “Prometheus” e “Vingadores”, o cinema queria universos compartilhados e Ridley parecia ir em outra direção. Mas o estrago estava feito.

Tudo aqui é especulação

Como este blog não é um blog voltado para a cultura pop em si, não vou gastar um longo tempo explicando aqui as conexões entre os diversos produtos de mídia que usarei de exemplo. O objetivo de os dizer é apenas chegar até a próxima seção.

Easter egg de Blade Runner em Alien: Isolation

Em 2012, ao lançar Prometheus, Scott se permitiu uma brincadeira. Em um material extra do DVD, incluiu um bônus onde o criador dos sintéticos do universo de Alien citava o “pai” dos replicantes de “Blade Runner”. A comunidade foi à loucura. “Alien: Isolation, jogo de 2014 que segue firme em sua batalha para ser canônico, reforçou essa premissa com um outro easter egg de Deckard.

Prometheus já era uma colcha de problemas para a cronologia da franquia, com a teimosia de Scott de enterrar o legado de James Cameron e levar a franquia para caminhos que havia planejado no seu filme original e não tinha sido realizado por questões de orçamento. Forçado a engulir o orgulho, se contentou em contar uma história paralela, misto de reboot com sequência, mas dentro de uma prequel. No meio disso, cresceram os rumores de que “Blade Runner” voltaria aos cinemas.

Nas mãos de Denis Villeneuve e com a benção de Scott, “Blade Runner 2049” ampliou a mitologia do seu predecessor, incluindo – SPOILERS- a possibilidade de replicantes terem filhos. Some isso a uma suposta aparição de um Engenheiro de Prometheus num tanque – bobagem- e uma ligação muito torta com os sintéticos de “Alien: A Ressureição”, representados por Winona Ryder e o espirito do crossover dos fãs estava com uma nova fagulha, só esperando material para queimar.

Por fim, neste ano de 2020, chegou à HBO MAX a série “Raised by Wolves” criada por Aaron Guzikowski e – na opinião deste tolo comentarista – sequestrada por Scott para brincar de tudo que ele não pode fazer nas suas duas franquias mais famosas.

Um universo particular
Muitos fãs encontram aqui semelhanças com o ritual dos engenheiros em Prometheus

Em “Raised by Wolves”, dois androides são enviados para um planeta deserto levando embriões humanos fugitivos de uma guerra religiosa. Cabe a um desses androides, a “mãe” nutrir e gerar esses embriões, no que parece ser um eco torto da trama vista na sequencia de “Blade Runner”. Fica mais curioso descobrir que nesta guerra, de um lado os humanos tratavam androides como abominações, apenas úteis enquanto pudessem realizar suas funções. O criador da “mãe”, por outro lado havia programado nela os valores da vida humana. Neste planeta há também, uma estranha ligação com a história da linhagem humana, seres com mutações genéticas e estranhas “serpentes” parasitas que tendo “infectado” a androide, sai de seu corpo numa cena chocante.

Só não fizeram o bicho estourar o peito por que o cast da segunda temporada estava pronto

Todas essas pistas, até o momento são falsas. Há elementos suficientes entre as três franquias que inviabilizam um grande universo compartilhado especial de Ridley Scott que segue tentando fazer seus “filmes inteligentes”. É relativo se ele está conseguindo obter sucesso nessa empreitada, mas uma coisa é certa: ele conseguiu colocar um monte de gente na lábia dele.

Os androides médicos de “Raised by Wolves” (ao fundo) lembram muito os replicantes de “Blade Runner” no comportamento

O modelo Disney – antigo modelo Marvel – de universos compartilhados foi, durante a última década, um paradigma a ser alcaçado. Todos os grandes estúdios tentaram fazer um “Vingadores” para chamar de seu. E nesse meio tempo, Scott estava escurraçando o pobre Neill Blomkamp e sua ideia obviamente mais legal do que os dois filmes de Scott. O problema é que essas ideias muito mais legais não são arriscadas, não permitem que Scott invente – para bem e para mal.

Em uma entrevista após o último episódio da primeira temporada da série, Scott foi perguntado sobre o significado de tanto os sintéticos de “Alien” quanto os androides de “RbW” terem sangue branco. Foi assim que ele respondeu:

Em “Alien”, eu estava em uma sala com Sigourney Weaver, que estava sendo atacada por Ian Holm como um andróide. Sua atuação era simplesmente sublime, e seu personagem estava a ponto de se perder completamente e se tornar violento. Eu disse: “Alguém tem um conta-gotas cheio de leite?” O departamento de maquiagem trouxe um conta-gotas, e eu peguei o leite, estendi a mão e coloquei uma gota de leite acima de seu olho e comecei a rolar. Quando caiu sobre seu olho, assustou todo mundo! E então pensei: “Todos os andróides têm sangue branco? Como leite de magnésia? ” É por isso que meus andróides são brancos leitosos por dentro. E para minha mãe, eu me perguntei: “Devo usar isso de novo?” Acho que funciona muito bem – é mais desconfortável do que ver sangue vermelho.

E assim sendo, todos os entusiastas em fóruns na internet estão errados. O homem quer brincar. E na falta de uma grande boa ideia, ele brinca com o público. E talvez isso também seja uma forma de arte.

Mas que lembra Prometheus, como lembra…