Poema – Sobre amar

Poesias

Se amo, é porque então no peito urge
um vazio, não como ausência das coisas
mas um vazio como coisa, que não se
expande e permanece imóvel

Na figura cristalina e congelada
das memórias passadas faço versos
e trovas, e marchas e histórias
sem nunca jamais tocar de novo
no amor que guardado em mausoléu
permanece intacto

O mundo gira cada vez mais rápido
E as pessoas
pobres pessoas
cada vez mais entregues a si
descobrem-se

Ah! Se fosse o homem e se fosse
a mulher um ser dotado de conhecer
e dominar aquilo que se chama amor
como se dobra um rio, represando
suas águas e retendo seu fluxo
para girar as turbinas da alma

Acenderiam em si tanta luz
tanto brilho que se esqueceriam
das vidas que a represa ceifa
Não. Prefiro eu mesmo mergulhar no rio
e nadar contra a corrente até seu fundo
escuro encontrar lá no leito a burra
onde cerrei todo o sentimento

E lá onde não alcançam os raios
fúlgidos e onde a água barrenta
me esconde os ruídos
encontro o vazio
e contrariando
os espíritos
respiro

se amo, amo apenas
pra questionar o juízo

 

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Crônica – Das perguntas que se faz numa livraria

Crônicas, Sem categoria

Um tolo entrou num restaurante pouco antes do almoço ser servido. Sentou-se perto à porta e dobrou uma das abas da toalha de mesa sobre o colo. O garçom, seguindo a contragosto o protocolo, foi atender a figura. O tolo pediu um livro.

“Um livro.” Perguntou o atendente.
“Um livro. Amarelo.”

Disparate. Sem resposta.

“Senhor, acho está no lugar errado…”
“Não, não. Estou onde deveria estar. Me deu vontade de ler.”
“Mas senhor…”
“Agora mesmo andando pela rua ouvi um sotaque. Me lembrou um certo autor que li quando menino, na roça, com minha tia. Que saudades.”

O garçom já não se aguentava, a hora passava e logos os clientes de verdade iam chegar.

“Aqui não servimos isso. Só comida italiana.”
“Desses já me cansei. Bebi muito disso no cinema Hollywoodiano.”
“Do outro lado da rua o senhor deve encontrar algo que lhe sirva.”

O homem corou, tinha receio de ir á banca de jornais.  Sentia-se pouco culto diante das notícias. Mas, enxotado pelo garçom que ria-se junto aos colegas, foi lá o tolo perguntar minguante ao jornaleiro se na caixa de doações literárias ali guardadas havia algo com o sabor da roça. Achando ali o livrinho amarelo, sentou-se na calçada e com um garfo e faca que trouxera no bolso pôs-se a devorar as páginas.

Faltava sal.

Diário 10-09-2019

Sem categoria

Estou trabalhando no livro. E em mil coisas mais. Uma amiga e leitora aqui do blog disse que meus poemas são basicamente “sobre eu lidar com minhas angústias para não parar de escrever.
Falei com um outro amigo hoje sobre como a escrita se trata apenas de necessidade, sem função. Rilke dizia o mesmo. Tsvetáieva também. Queria que o livro marcasse um ponto final nestes temas, uma virada na página. Mas só se vira a página num livro, na vida as coisas seguem.

Continuo temendo pelo emprego, novas complicações continuam surgindo. O aluguel está atrasado de novo a despeito do esforço para resolver tudo isso…

[…]
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

                                              -Paulo Leminski

Conto – Ele e Ela

Contos
*Para A, do sempre seu.
2017

Ela o recebeu rapidamente, mas desde antes da porta se abrir ele podia ouvi-la atrás daquela fina barreia. Parada, mexendo nas chaves, talvez um passo e então o giro da tranca. Ela estava linda, com seus cabelos presos por um elástico formando uma auréola. Era angelical. Ele sorriu, ela se aproximou e o beijou. Um beijo suave com a ponta dos lábios. Ele não esperava por isso. Estendeu a mão para ela e entrou tocando em sua pele. Ao vê-la fechar a porta, puxou o corpo da jovem para si, ou o seu para perto dela, beijando sua boca como se nunca tivesse beijando outra pessoa antes. Era inevitável, ela pensava destoando a voz na cabeça dele que gritava: “Fantástico”.

Nenhum dos dois fez menção de parar, embora com certeza fosse o mais sensato a se fazer. As mãos dele escorregaram pelas costas dela sentindo sua pele por baixo da blusa, suas unhas rocando de leve e produzindo um rastro de arrepio antes de repousarem sobre sua cintura, ela puxou novamente para perto colando o corpo dos dois tanto quanto se é possível, ela suspirou e deixou o corpo se soltar, afastando os lábios para respirar num suspiro. Como quem quer prolongar um momento para sempre ele morde de leve os lábios inferiores dela, deixando que eles se soltem enquanto ela se afasta. E ele consegue, aqueles dois ou três segundo se congelam, a garota respira devagar, com uma respiração pesada e os olhos enormes. Ela se abaixa, desviando o olhar e respira.
“O que eu tenho na cabeça?” Ela se pergunta. Sente então a mão dele em seu queixo, o toque suave da sua pele guiando seu rosto gentilmente de volta aos olhos dele. Ela o olha fixamente, ele que sempre foi incapaz de permanecer em silencio, agora expressa com os olhos o que nenhuma palavra poderia dizer. Ela sente no ar que sai de sua boca todo o desejo que ela não consegue por em palavras, ela sente o mesmo desejo emanando dos seus poros mas ainda que seu corpo queira se entregar naquele momento ela ainda reluta com um grande não entalado na garganta. Ela trava, ele sorri.

“Quer comer alguma coisa?” – A voz dele não é mais a mesma, ou ela não está ouvindo da mesma forma.

Dia! Ou noite. Espero que tenham gostado deste conto e se for o caso, você pode compartilhar ele com alguém. Use a vontade!

Agora estou recebendo textos para leitura crítica de contos, crônicas e poesia. O primeiro contato é completamente cortesia. Se você quer conversar sobre um texto guardado na gaveta ou bater um papo sobre uma dúvida em específico, basta mandar um email identificado como “Leitura crítica + o seu nome” para assis.umdetudo@gmail.com 

Um de tudo #3 – Uma cruzada pelas crianças?

Em série, Textos

Onde passa um boi, passa boiada.

Evito falar de política, mas admito que me é um tema caro. Apesar de chato e de geralmente despertar paixões, ainda acredito no potencial da politica de conter os impulsos violentos da sociedade. No Brasil, esse potencial vem se esvaziando.

Insisto, no entanto a me prontificar aqui apena quando o assunto bate naquilo que é objeto do blog: Literatura, cinema e correlatas. E acho que isso já rende muito.

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Fonte: O Globo

Num vídeo para o Twitter, o prefeito do Rio pronunciou o seguinte: “A prefeitura do Rio determinou que os organizadores recolhessem esse livro, que já foi denunciado inclusive na internet e que traz conteúdo sexual para menores. Livros assim precisam estar embalados em plástico preto, lacrado e com um aviso do lado de fora sobre o conteúdo. Portanto, a prefeitura do Rio de Janeiro está protegendo os menores da nossa cidade.” Bobagem! Pura demagogia e preconceito num caldeirão das redes sociais.

Em comunicado, a Bienal afirmou que “dá voz a todos os públicos, sem distinção, como uma democracia deve ser. Inclusive, no próximo fim de semana, a Bienal do Livro terá três painéis para debater a literatura Trans e LGBTQA+. A direção do festival entende que, caso um visitante adquira uma obra que não o agrade, ele tem todo o direito de solicitar a troca do produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor.”

A nota da prefeitura pede que a Bienal retire os exemplares da HQ “Cruzada das crianças” cuja edição em questão é o número 66º da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, lançado no Brasil em 2016 pela Editorial Salvat em parceria com a Panini Comics. Não vou me ater ao conteúdo da edição, vou direto ao ponto que incomodou Crivella. Na edição há um beijo gay e um diálogo com alusão à sexo.

“Estamos prestes a ter intimidades no QG dos Vingadores?”
“Não diga mais nada”

Estou escrevendo de cabeça, comprei essa edição quando foi lançada no Brasil em 2016 e já me desfiz dela como de vários outros quadrinhos. Não tenho como consultar isto, mas garanto que não se trata de uma “visão sexualizada que vai influenciar nossas criança.”

A nota da prefeitura pede que a Bienal retire os exemplares ou os adeque aos artigos 74 à 80 do ECA. Estes artigos, tão desatualizados falam sobre regras para locadoras, aludem à venda de revistas pornô como a Playboy e falam sobre a proibição de menores para jogar sinuca (Nunca entendi essa e vocês?)

A regra a que se alude seria para que tudo que for público tenha afixado sua classificação indicativa indicada claramente e que publicações explícitas não possam ser exibidas ao público. Nada disso se enquadra no caso. Mas há algo na lei que torna cinza essa confusão. No ECA, nestes mesmos artigos, diz-se que as publicações devem seguir a ética, e se o prefeito (e em decorrência, a prefeitura) consideram uma relação homossexual como antiética, então justifica-se a censura.

É preciso aceitar essas duas coisas, que o que ocorre é censura e que se levada a cabo se dá por conta de uma visão de mundo preconceituosa e cruel, onde relações fora do padrão são vistas como algo que não pode ser aceito na sociedade, sendo equiparadas à pornografia. Aceitar que essas são as bases do pedido de Crivella ajudam a tirar o verniz de “cuidado com as crianças” e da falsa legalidade que o ato possui. A letra da lei é imperfeita e a ética da sociedade muda. A cabeça de certas pessoas, procurando usar as massas como manobra, aparentemente não.

Ps: Tive aulas com Marcelo Crivella em 2012, em ocasião de um curso de formação política do PRB. Gostaria de ter a chance de novo para falar algumas coisas aqui escritas diretamente. Vale relembrar também que existe um movimento amplo em defesa da representatividade para crianças LGBT+, tema que assusta os mais conservadores. Autores como Rebecca Sugar tem despontado com influência e adquirido o respeito da industria. Recomendo os vídeos do canal Meteoro Brasil, para quem não conheça, sobre o tema. Basta comentar aqui em baixo que passo links.

Atualização 

Logo pela manhã a edição da Salvat estava esgotada. O prefeito poderia ter deixado as coisas por aí mesmo, mas enviou fiscais para a bienal a fim de vasculhar os estandes em busca de materiais obscenos. Funcionários das editoras presentes alegam que os fiscais pediram que materiais com temas LGBT+ sejam classificados como impróprios para menores.

Isso reforça o que eu disse acima. O que a Prefeitura do Rio de Janeiro faz com esse ato é comprovar que na figura do prefeito, Marcelo Crivella, se estabelece relações homossexuais como algo imoral e a censura como algo aceitável.

07/09/19

No dia de hoje, por autoria de Claudio de Mello Tavares, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, está autorizada a apreensão de obras literárias com temática LGBT+. Todo resto é eufemismo. A censura voltou e voltou com força. O desembargador em questão, já decidiu em 2009 o quer se lê abaixo, e sobre isso não digo mais nada.

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09/09/19

Ontem o STF cassou a decisão de Claudio de Mello Tavares. Duas vezes! Agradeço que a coisa não escalou.
A prefeitura do Rio abriu um recurso se valendo de imagens falsas. Não aprenderam.

Fim da atualização 

Dia! Ou noite. Espero que tenham gostado deste texto e se for o caso, você pode compartilhar ele com alguém. Use a vontade!

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Pré- venda do livro “Loteria”

diario

Salve amigos!

Loteria

Decidi reunir em formato impresso alguns dos poemas do blog e vou lançar o volume no mês que vem (out/2019). São poemas que certamente são conhecidos dos que acompanham o blog com frequência e portanto este post não é uma oferta de venda (Embora a organização dos poemas nas 52 páginas do livro sejam um elemento estético em si).

Venho aqui na verdade dizer que, se vocês quiserem, podem distribuir a imagem acima entre amigos que gostem de poesia. A isso serei enormemente grato.

O valor do livro será em R$ 20,00 reais e o frete pode ser negociado, a depender da localidade do envio.

Nunca incentivei ninguém a jogar na loteria, mas se quiser tentar a sorte, diria que agora é o melhor momento.

Abraços!

Poesia – Os olhos

Poesias

Os olhos de uma multidão correm
irrequietos ansiosos de encontrarem
outros olhos e fugidios
pousam em qualquer coisa
que os façam esquecer
que são multidão
Livros
Telas
movimentos
estáticos

O céu e a terra
as árvores do parque
tudo contemplam
Enquanto as obras dos
homens pouco a pouco
de desfazem

E a isso olhos
já não podem ver

 

Dia! Ou noite. Espero que tenham gostado deste poema e se for o caso, você pode compartilhar ele com alguém. Use a vontade!

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Poema – As traças

Poesias

Recebi sua monografia em
bit byte e em pixel
mas minha vista cansada
deu tilt sei que nessa
geração tão próxima
da minha essa palavra
moganga não dá mais linha
ah a linha
ainda me lembro de
ter pulso e ouvir os sons
que vinham avulsos na
conexão da internet
que nascia

Essa sensação de mundo movente
é a culpada dessa sensação insone
indormente de que a minha juventude
é velha dada aos gostos do passado
esse passado tão mais frequente

Dê-me um livro escrito em formas
refinadas da língua pátria quero
o cheiro de velho e as traças

Sim as traças
são elas que devorando
o amido deglutem melhor
o juízo contido nas páginas
decoradas

E assim
no bater de suas asas
ouço as histórias
os amores
os versos
e a filosofia
do nada