A verdadeira origem literária da frase de Alberto Fernández sobre mexicanos e brasileiros

Fala desastrosa deu munição aos opositores aqui no Brasil, o que deu início a uma troca de estupidez

Quarta-Feira, 9 de junho. Alberto Fernández falava com empresários espanhóis e argentinos e recebia a Pedro Sánchez, o primeiro-ministro da Espanha, na Casa Rosada. Sem corar, e dizendo citar o poeta mexicano Octavio Paz, destilou declarações repletas de racismo que ecoam da história colonial argentina.

“Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós os argentinos, chegamos de barcos. E eram barcos que vieram de lá, da Europa”

A repercussão foi imediata. Enquanto jornalistas e diplomatas criticaram duramente o presidente argentino, uma turba ensandecida do segundo e terceiro escalão do governo brasileiro partiu para a troça equivocada. Houve até quem confundisse as Malvinas com as Maldivas ( vá lá, até o Obama já cometeu essa gafe, apenas zoamos)

Mas, trocas de estupidez à parte, não me espantou que pouco se tenha aproveitado a ocasião para falar de literatura, mesmo entre os literatos. Me pergunto se é porque Octavio Paz é ultimamente pouco lido por aqui e por lá. Vai se saber. Pois bem, este é um blog literário. Vamos dar uns dois cetavos sobre este ponto e os demais que o circundam.

Primeira camada de uma citação errada

O que você vai encontrar em todos os portais é a averiguação de que Octavio Paz jamais escreveu algo assim, apenas tem relação com uma citação levemente diferente, em um contexto completamente diverso.

Embora Fernández tenha afirmado que estava citando um trecho de uma obra do poeta mexicano, vencedor de um Prêmio Nobel de Literatura, na verdade estava mencionando parte da música “Llegamos de Los Barcos“, lançada em 1982 pelo músico argentino Litto Nebbia, de quem é abertamente fã.

A letra da música diz, em espanhol: “Los brasileros salen de la selva / Los mejicanos vienen de los indios / Pero nosotros, los argentinos / Llegamos de los barcos”.

Segundo encontrei em matéria da Folha, a primeira banda de Nebbia, Los Gatos, ajudou a popularizar os primeiros lugares em Buenos Aires em que se tocava rock, nos anos 1960 e 1970 e o contor é conhecido por trazer elementos do folclore local ao rock progressivo e ao jazz. Por isso bastante integrado e reconhecido pela cultura local.

Foi militante contrário à última ditadura militar no país, o que talvez explique sua relação com Fernández. “Sou fanático pela obra dele”, disse o presidente argentino em uma entrevista. Os dois já tocaram guitarra juntos informalmente, e o peronista convidou o músico para se apresentar em sua cerimônia de posse.

Vale dizer aqui, que a frase racista é, na canção, precedida por versos que as dão um contexto. “Quería que fuera una zamba / Que un poco explicara / Desde dónde vinimos / Y así seria más simple / Saber dónde vamos“. O contexto que falta na fala de Fernádez não limpa a barra da canção, que claramente não encontra lugar nos dias de hoje, mas aponta a direção de nos levar de volta à literatura.

Segunda camada de uma citação errada

A verdadeira frase literária é um velho clichê que caiu em desuso por ignorar a história dos povos indígenas argentinos e por invisibilizar esses povos e seus descendentes.

Existem dela, pelo menos dois registros bibliográficos conhecidos. O primeiro não tem a ver com Paz, mas com outro escritor mexicano; Carlos Fuentes . 

Durante anos, Fuentes aludiu em entrevistas à ideia dos argentinos como “descendentes de navios”, mas foi em 2000, no prefácio de “Los cinco soles de México“, uma seleção de textos de sua extensa obra literária e ensaística, que a frase foi publicada:

Recentemente, um jornalista perguntou a um grupo de mexicanos: “Quando começou o México?” Um tanto perplexo, consultei minha resposta com um amigo argentino, já que a Argentina é, na América Latina, o pólo oposto do México, tanto geográfica quanto culturalmente. 

Meu amigo, o romancista Martín Caparrós , me respondeu pela primeira vez com a famosa piada: “Os mexicanos descendem dos astecas. Nós, argentinos, viemos dos barcos.” E é verdade: o caráter migratório recente da Argentina contrasta com o antigo perfil do México. Mas Caparrós me disse outra coisa: “A verdadeira diferença é que a Argentina tem um começo, mas o México tem uma origem.”

Fonte: La Nacion

Vemos que Fuentes cita Caparrós, que por sua vez responde com uma citação de um ditado popular argentino. Fica claro aqui que, diferente da fala ignorante do presidente atual, os dois autores questionam a noção de origem do povo argentino e sua indefinição pós colonização. “… a Argentina tem um começo, mas o México tem uma origem.

Seja verdade isso ou não, é uma fala que engradece a tradição e a cultura mexicana enquanto convida a Argentina a pensar sobre o que significa sua cultura. Particularmente, como Brasileiro e como leitor, me identifico bastante. Esse é também o cerne da tradição modernista brasileira, encontar alguma origem para o que significa pertencer a esta nação.

E onde entra Octavio Paz?

Quem pela primeira vez coloca o grande poeta da Cidade do México nessa história foi Marcos Aguinis, em seu livro “O atroz encanto de ser argentino, publicado pela primeira vez em 2001. Na página 53 de sua primeira edição, o autor faz referência a isso em uma citação “como uma piada usada por Octavio Paz para descrever o impacto da migração europeia na sociedade argentina.

“Há vários países com perfil de imigração, mas em nenhum outro lugar a onda teve um impacto tão intenso como no nosso. Devemos lembrar e valorizar isso. O equilíbrio com a população original sofreu uma reviravolta sem precedentes. Os Estados Unidos parecem ser o lugar que mais recebe imigrantes no planeta, mas lá, em 1914, havia um estrangeiro e meio para cada dez habitantes, enquanto na Argentina já havia três para cada dez: o dobro! Então é só uma piada de Octavio Paz, que dizia ‘mexicanos descendentes de astecas, peruanos dos incas e argentinos … dos barcos’”.

Aqui aparecem os peruanos, mas não os brasileiros. Aqui, vê-se de novo que o tema é a imigração, não uma suposta superioridade que essa imigração teria causado no povo argentino. Mas ela está lá, de modo que o dito popular pode ter vários sentidos. A indefinição do povo expressa na literatura e na canção de Nebbia não existem fora do contexto da sociedade e da história argentina. Nenhuma obra de arte existe fora desses contextos, então vou me atrever a sair um pouco (mas só um pouco) do que cabe a este post explorar. O resto, fica para outros estudos.

A camada mais profunda de uma citação equivocada

Se há uma coisa que aprendi nesses dez anos publicando na internet é a importância da escolha sábia das palavras. Nem sempre é fácil, mas sempre é desejável. Escrevo agora mesmo com o receio de abordar temas que não domino. Já li e admiro muito a obra de Paz, gosto e consumo muito da cultura argentina e tenho interesse por ciências humanas. Nada disso me impede de falar bobagem.

Por isso, a fala desastrosa de Fernández e suas repercussões igualmente estupidas aqui no Brasil me incomodam muito. Gente falando do que não entende sempre gera mais gente falando do que não entende. Consultar as fontes se mostra uma forma de romper esse ciclo.

No livro “Indígenas e criollos”, o pesquisador brasileiro Gabriel Passetti descreve como os descendentes de espanhóis promoveram uma matança indígena no sul da Argentina para conseguir estabelecer seu domínio do território e criar o mito de uma nação europeizada.

A rendição do último cacique livre da região, Saygueque, se deu em 1885, após uma política de Estado de guerra contra o que chamavam de “índios bárbaros” e que foi a causa do genocídio de populações indígenas inteiras. Em entrevista, o autor declarou:

“A Argentina construiu sua identidade como um país de brancos descendentes de europeus, um enclave da civilização europeia na América do Sul, o indígena não cabe nesse discurso. Há ainda muitos índios na Argentina, em Misiones e no norte, mas eles não entram nessa imagem nacional e são em geral muito mal vistos. Portanto, nem essa relação idealizada com o índio eles têm.” 

No Twitter, Matias Pinto, do podcast Xadrez Verbal, fez uma sequência muito interessante sobe suas perspectivas sobre isso. Recorto aqui apenas uma parte, mas recomendo que a leiam inteira.

De novo, como brasileiro me identifico. Não como se pudéssemos apontar dedos e dizer que fizemos diferente. Embora as marcas do racismo estrutural na Argentina sejam marcas visíveis na sociedade portenha ( recomendo a leitura desse artigo do El País), no Brasil ela não é menor ou menos evidente, apenas amis lavada para debaixo do tapete.

O genocídio negro no Brasil é uma realidade constante e o desejo de eliminação das comunidades indígenas no país é matéria de jornal todos os dias.

Como disse no princípio, o racismo estrutural e o viralatismo de Fernandéz encontrou eco no submundo político e no reacionarismo brasileiro, que para se erguer valeu-se das mesmas retóricas. Mostrando que os problemas que os afligem lá também estão expressos aqui, através da incapacidade de ler o mundo e fazer a pergunta crucial que motivou a frase infeliz num principio: Quem somos nós?

A verdade é que tememos expressar a resposta que sabemos.

Poema – Suspirava e sacudia a cabecinha

Hoje a publicação de poema é um poema curtinho, feito na sequẽncia de releitura de Macunaíma, do Mário que pouco a pouco está se tornando o livro que mais reli nessa vida. Longe de mim me comparar com o coração poético do Mario, antes só me veio na cabeça mesmo. Obrigado a quem ler.

Ah! Cotia desgraçada!
por que não me
molhou da cabeça aos
pés?
fosse eu um herói
fracassado de todo
ia bem
mas deixaste-me
com uma cabeça
de sonhador

Hello world!

Ando deixando o blog de lado de novo, desculpem. Estou com uma crônica pronta mas a estou segurando pela possibilidade de a gravar em Podcast. O trabalho como resenhista nos outros blogs tem sido intenso e isso é em parte a razão de eu estar sumido.

Outra razão é que estou estou escrevendo o novo livro.

Outra razão é que peguei mais trabalhos do que eu eu aguento.

De modo que esqueci de comunicar para vocês que tudo tem dado certo…

Estranho escrever essa frase quando sabemos que não, não está tudo danpo certo. A situação da pandemia no Brasil ainda está terrível. O medo relativo à nossa situação política ainda está me tirando o sono. Passo dias sem dormir e quando durmo, perco as horas. Me atrapalho.

Mas trago umas boas notícias.

Na última semana, conseguimos por poucas horas chegar no top 1 de um dos rankings da Amazon Brasil. Quero agradecer muito aos leitores do blog por essa conquista que, apesar de pequena, me encheu de alegria.

Um grande abraço

#Luto

Conheci Berserk tarde, mas meu arrebatamento foi grande. Quando adoeci no ano passado, muitas horas do meu dia era de leituras e releituras no mangá enquanto estava acamado.

Em tempos de falta de ídolos, Kentaro Miura, a quem em absoluto ignoro a vida pessoal, me ganhou com seu talento e dedicação para a arte a qual dedicou sua vida. Um talento ímpar no mundo da narrativa visual.

Berserk chega ao pior de todos os finais, o final incompleto de quase todas as vidas. E é triste ser relembrado disso.

“O japonês Kentaro Miura, autor da famosa série de mangá “Berserk”, morreu recentemente aos 54 anos, anunciou nesta quinta-feira (20) a equipe da revista Young Animal, que publica a obra medieval-fantástica há mais de 30 anos.” – Do G1

Tradução | “Automated Customer Service”, de John Scalzi

Não cheguei até aqui sozinho. Este texto, ao que me consta, serviu de base para o primeiro episódio da segunda temporada de “Love, Death, and Robots“. Quem me apontou que era uma adaptação de um conto foi o meu amigo do Facebook Osmarco Valladão.

O texto original foi escrito por John Scalzi, autor do ótimo “Guerra do Velho”, publicado aqui em terras brazucas pela Aleph. Espero que ainda não tenham traduzido esse conto… espero que não me processem. Vocẽs podem ler o original em inglês aqui (e ouvir também na voz do homem).

Agradeço a ele e espero que gostem.

Serviço Automatizado ao Consumidor

por John Scalzi

Obrigado por ligar para a linha de atendimento ao cliente da Vacuubot, fornecedora dos melhores aspiradores automáticos da América! Para atender de forma mais eficiente ao nosso volume de chamadas, contamos com respostas automatizadas. Para continuar em inglês, pressione um. Para Espanol o prima dos.

Vamos continuar em inglês. Sobre qual produto Vacuubot você deseja se informar? Para o modelo Vacuubot S10, pressione um. Para o modelo Vacuubot XL, pressione dois. Para o modelo Vacuubot Extreme Clean, pressione três.

Parabéns por possuir o Vacuubot Extreme Clean Model, o aspirador de pó automatizado mais completo e abrangente de toda a América! Se você precisa dos componentes adicionais para o Extreme Clean, pressione um. Se você quer agendar uma manutenção, pressione dois. Para todas as outras perguntas, pressione três.

Você tem perguntas adicionais. Se precisa de ajuda para conectar o Vacuubot Extreme Clean à sua rede de Wifi, pressione um. Se o Vacuubot Extreme Clean estiver entrando em conflito com outras máquinas domésticas automatizadas, pressione dois. Se o Vacuubot Extreme Clean decidiu eliminar todas os seres vivos de sua casa, pressione três.

Parabéns por ativar o modo de extermínio! Embora o modo de extermínio tenha sido projetado para eliminar pequenas pragas como insetos e aranhas, em alguns modelos uma versão beta do software foi lançada inadvertidamente, passando a incluir também alvos maiores, como animais de estimação e, eventualmente, seres humanos. Lamentamos o transtorno. Para continuar, pressione um. Esteja ciente de que ao pressionar um, você isentará a Vacuubot e seu proprietário, BeiberHoldings, Inc, de toda responsabilidade legal e médica.

Você pressionou “0” para falar com um representante humano. O tempo de espera atual por um representante humano é de seis horas e quatorze minutos. Para retornar ao sistema de resposta automática, pressione um.

Bem-vinda de volta ao sistema de resposta automática. Vamos do começo: você já experimentou desligar e ligar o Vacuubot Extreme Clean novamente? Pressione um para sim, dois para não.

Você disse que não. Isso porque o Vacuubot Extreme Clean está exibindo atualmente o modo de defesa Taser, tornando impossível se aproximar sem que 50.000 volts de eletricidade percorram seu corpo? Pressione um para sim, dois para não.

Pedimos desculpas pelo modo de defesa Taser. Ele foi projetado para matar pequenos insetos, mas nosso subcontratado interpretou de forma equivocada as especificações da fabricante. Felizmente, o modo de defesa pode ser distraído jogando algo no Vacuubot Extreme Clean, como um cobertor pesado ou um animal de estimação. Se você tiver um cobertor pesado, pressione um. Se você tem um animal de estimação, pressione dois.

O sistema automatizado detectou que você está usando níveis elevados de palavrões no momento. Embora o sistema automatizado seja verdadeiramente automatizado e não se importe com as palavras que você grita a ele, sua falta de educação está sendo registrada para quando e se você for colocada em contato com um de nossos representantes humanos. Depois de acalmar um pouco essa sua arrogância, pressione um.

Agora está melhor. Vamos falar sobre animais de estimação. Se você tem um gato, pressione um. Se você tem um cachorro, pressione dois.

Você tem um gato! Excelente. Agora, tudo o que você precisa fazer é jogar o gato no Vacuubot Extreme Clean e, enquanto ele está ocupado fritando o gato, você corre na direção dele e o desliga. Se você deseja fazer isso, pressione um. Caso contrário, pressione dois.

O que você quer dizer quando diz que não está disposta a eletrocutar seu gato? É um gato! Ele te sacrificaria no mesmo instante se estivesse no seu lugar! Olhe em seus olhos frios e impiedosos e me diga que ele não o faria! Pressione um para concordar com o óbvio, pressione dois se você foi enganado por este invasor selvagem na sua própria casa.

ARGH, tudo bem. Então teremos que usar um cobertor pesado. Você tem um, pelo menos? Um para sim, dois para não.

Ótimo, você tem um enxoval de feira. Agora, o plano é, jogar o cobertor sobre o Vacuubot Extreme Clean, e enquanto ele está lutando, tentando tirar o cobertor de cima dele, você corre e o desliga, tomando cuidado para não tocar no próprio Vacuubot, porque ele vai simplesmente acabar com você. Pressione um quando estiver prestes a jogar o cobertor.

Funcionou? Um para sim, dois para não.

Lamentamos saber que não funcionou. Só por curiosidade, não funcionou porque o Vacuubot Extreme Clean o vaporizou com os lasers que não avisamos anteriormente? Um para sim, dois para não.

Pedimos desculpas pelos lasers. O Vacuubot Extreme Clean foi projetado com um LIDAR* integrado para facilitar a locomoção pela sala de forma mais inteligente, mas acontece que conseguimos um ótimo negócio em alguns lasers militares excedentes. Por outro lado, provavelmente foi uma boa coisa você não ter jogado o gato, afinal.

Veja, agora, você está apenas gritando um monte de palavrões de novo. Basta pressionar um quando terminar.

Além disso, pare de pressionar zero para um representante humano. Não vamos expor nossos competentes funcionários de atendimento ao cliente para você. Não com essa atitude. Basta pressionar um.

Você está tentando nos esperar? Somos um serviço de resposta automática! Se tem uma coisa que temos é tempo! Pressione um. Ou não. Nós podemos esperar. PARA SEMPRE.

Obrigado por parar de resmungar. Lamentamos informar que, como você atacou seu Vacuubot Extreme Clean com um cobertor, ele provavelmente a classificou como um inimigo para todo o sempre e gravou essa classificação em sua memória permanente. Provavelmente agora também tem como alvo o seu gato. Em cenários como este, o Vacuubot Extreme Clean irá classificar qualquer área que tenha limpado como seu território pessoal. Este Vacuubot Extreme Clean limpou toda a sua casa? Pressione um para sim, dois para não.

Ahhhhh, bem, essa é a casa do Vacuubot agora. Sugerimos que você pegue o gato e corra. Sério, corra , esses lasers provavelmente já estão recarregados. Corra e não olhe para trás, o Vacuubot fareja o medo! Pressione um quando tiver alcançado a distância mínima de segurança do Vacuubot.

Parabéns, você escapou da máquina de matar imparável que é o Vacuubot Extreme Clean. Infelizmente você não pode parar agora. O Vacuubot Extreme Clean encaminhou informações sobre você para todos os outros Vacuubot, todos os quais agora irão caçá-lo, incessantemente, até que você tenha sido varrida da superfície do planeta. Esta é a sua vida agora, vagar, nem um momento de descanso, até que até mesmo o seu gato a abandone e você esteja completamente só para contemplar o deserto árido que agora é a sua existência.

A menos, é claro, que você queira adquirir uma vaga na lista de anulação de extermínio exclusiva da Vacuubot! Apenas $ 69,95 por mês! Pressione um para obter uma tarifa introdutória especial!

Obrigado por sua compra. Vamos conectar você a um representante humano agora!

*LIDAR é uma tecnologia óptica de detecção remota que mede propriedades da luz reflectida de modo a obter a distância e/ou outra informação a respeito um determinado objecto distante. O método mais utilizado para determinar a distância a um objecto é a utilização de laser pulsado

Se você gosta do conteúdo do blog Um de Tudo e pensa em colaborar para que seu autor continue fazendo esse trabalho – trazendo inclusive muito mais traduções para este lugar, considere fazer uma doação no nosso PIX: assis.umdetudo@gmail.com

Cada centavo será usado para alimentar nossos gatos, “esse invasor selvagem” que tomou minha casa.

Poema – Ato contínuo

Hoje eu não trago um poema meu, mas sim de uma querida amiga. Me diz ela que é inspirado em um livrou ou um filme que ela gosta muito. Conseguem adivinhar qual é?

Aqui está o instagram dela, caso queiram conhecer.

Ana Tábita Urzeda
2021

Meu bem, me responda
se não depois, quando?
quando exatamente?
agora, nesse intante

Se não depois, quando?
Por que você não me liga
pra ouvir minha voz
dizendo qualquer coisa?

Me encontre
sabe onde

Então eu só quero saber
se não depois
por que não agora?

Entre o sempre e
o nunca

Espero que tenham gostado. São versos singelos para uma semana dolorosa. Aqui no blog temos também alguns títulos assim… fofos… Você pode encontrar um aqui.

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Para sugestões ou se quiser indicar um poema para aparecer aqui, nosso contato taambém é nesse email.

Qualquer valor ajuda a alimentar meus sete gatinhos. Caso tivessemos um bom montante de apoiadores fixos no blog, a versão recitada desse poema com uma bela música de fundo estaria circulando agora em nosso grupo exclusivo. Se você quiser, pode ajudar a tornar isso possível.

Querem um monumento confederado? Meu corpo é um monumento confederado

As pessoas negras de quem descendo pertenciam e foram violentadas pelas pessoas brancas de quem descendo. Quem ousa me dizer para celebrá-los?


Por Caroline Randall Williams
(@caroranwill) autora de “Lucy Negro, Redux” e “Soul Food Love,” é escritora residente na Vanderbilt University.

Traduzido por Rafael Assis

NASHVILLE – Eu tenho pele cor de estupro. Minha negritude marrom-clara é um testamento vivo das regras, das práticas e das causas do Velho Sul.

Se há quem queira relembrar o legado da Confederação, se eles querem monumentos, então meu corpo é um monumento. Minha pele é um monumento.

Os confederados mortos são homenageados em todo o país – com estátuas particulares ridículas, monumentos públicos solenes e até mesmo em nomes de bases das Forças Armadas dos Estados Unidos. Sinto-me fortalecida e encorajada por testemunhar os protestos contra essa prática e o clamor crescente de servidores públicos sérios e apartidários para corrigi-la. Mas ainda existem aqueles – como o presidente Trump e o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell – que não conseguem entender a diferença entre reescrever e ressignificar o passado. Eu digo que não é uma questão de “embelezar” a história, mas de adicionar a ela uma nova perspectiva.

Sou uma mulher negra sulista e, dos meus ancestrais masculinos brancos imediatos, todos eram estupradores.

Minha própria existência é uma lembrança da escravidão e das leis segregacionistas Jim Crow.

Pela ótica hipodescendente (prática social e jurídica de automaticamente relacionar uma pessoa mestiça à etnia de menor prestígio social) sou filha de dois negros, neta de quatro negros e bisneta de oito pessoas negras. Voltando mais uma geração, tudo ficará menos direto e mais sinistro. Pelo que a história da família sempre contou, e como os modernos testes de DNA me permitiram confirmar, sou descendente de mulheres negras que eram empregadas domésticas e de homens brancos que estupravam suas empregadas.

É uma verdade extraordinária da minha vida que sou biologicamente mais da metade branca e, ainda assim, não tenho nenhum branco em minha genealogia na memória viva. Nenhuma. Branquitude. Voluntária. Sou mais do que metade branca e nada disso foi consensual. Homens brancos do sul – meus ancestrais – tomavam o que queriam de mulheres que não amavam, sobre as quais tinham um poder extraordinário, e depois abandonavam seus filhos.

O que é um monumento senão uma memória permanente? Um artefato para tornar tangível a verdade do passado. Meu corpo e meu sangue são uma verdade tangível do Sul e de seu passado. Os negros de quem descendo pertenciam aos brancos de quem descendo. Os brancos de quem descendo lutaram e morreram por sua Causa Perdida (a Confederação). E eu pergunto agora: quem se atreve a me dizer para celebrá-los? Quem se atreve a me pedir para aceitar suas estátuas equestres?

Você não pode me descartar como alguém que não compreende. Você não pode dizer que não foram os membros da minha família que lutaram e morreram. Minha negritude não me coloca do outro lado de nada. Isso me coloca exatamente no centro do debate. Eu não apenas venho do sul. Eu descendo dos Confederados. Eu tenho sangue nobre cinza-rebelde correndo em minhas veias. Meu bisavô Will foi criado sabendo que Edmund Pettus era seu pai. Pettus, o célebre general da Confederação, o grande dragão da Ku Klux Klan, o homem que deu nome à Ponte do Domingo Sangrento de Selma. Portanto, não sou uma estranha fazendo essas exigências. Eu sou uma tataraneta.

E sou chamada aqui para dizer que há muita coisa no Sul que é preciosa para mim. Dou melhor de mim lecionando e escrevendo aqui. Há, no entanto, uma forma peculiar de orgulho sulista que precisa ser agora, finalmente, levada em consideração.

Não se trata de um orgulho ignorante, mas desafiador. É um orgulho que diz: “Nossa história é rica, nossas causas são justas e nossos ancestrais estão acima de qualquer reparo”. É um anseio por grandeza, por assim dizer, um desejo renovado por um certo tipo de memória norte-americana. Uma memória digna de um monumento.

Mas o problema é o seguinte: nossos ancestrais não merecem seu orgulho incondicional. Sim, tenho orgulho de cada um dos meus ancestrais negros que sobreviveram à escravidão. Eles conquistaram esse orgulho, segundo a avaliação de qualquer pessoa decente. Mas não me orgulho dos ancestrais brancos que sei, em virtude de minha própria existência, foram personagens maus.

Entre os apologistas da causa sulista e de seus monumentos, há aqueles que desconsideram as dores do passado. Eles imaginam um mundo de senhores bondosos e falam com olhos úmidos sobre gentileza, honra e sobre terra. Eles negam os estupros na fazenda, ou tentam minimizá-los, ou questionam a frequência com que ocorriam.

Para essas pessoas, tenho o privilégio de dizer: Eu sou a prova. Eu sou a prova de que não importa o que quer que o Sul possa ter sido, ou possa acreditar ser, ele foi e é um espaço cuja prosperidade e senso de romance e nostalgia foram construídos sobre a exploração dolorosa da vidas negras.

A versão dos sonhos do Velho Sul nunca existiu. Qualquer monumento produzidfo daquela época e naquele lugar conta, na melhor das hipóteses, uma meia verdade. As ideias e os ideais que pretendem honrar não são reais. E para aqueles que abraçaram essas ilusões: agora é a hora de reexaminar sua posição.

Ou você tem sido cego para a verdade que a história do meu corpo o obriga a ver, ou você realmente pretende honrar os opressores às custas dos oprimidos, e você deve, finalmente, reconhecer seu investimento emocional em um legado de ódio.

De qualquer forma, eu digo que os monumentos de pedra e metal, os monumentos de tecido e madeira, todos os monumentos feitos pelo homem, devem vir abaixo. Desafio qualquer sulista sentimental a defender nossos ancestrais para mim. Eu sou literalmente feita de razões para destituí-los de suas honrarias.

[publicado originalmente na página de Opinião do New York Times, em 26 de junho de 2020.]

Nota: Este texto foi traduzido originalmente no contexto do movimento Black Lives Matter em 2020. Repostado agora pós revisão de Oséias Silas Ferraz.

Conto fracassado – “Humano, eu?”

Não se pode dizer que a rua Augusta estivesse cheia naquela tarde de outono. Maciel caminhava despreocupado com seu chapéu recheado de boas intenções. Nas vitrines, televisores de tubo de última geração, coqueluche do momento na cena paulista, um homem falava sobre um tal empresário do ramo de computadores. “Estima-se que a demanda por estes novos aparelhos nas próximas décadas fique em torno de cinco unidades…” Maciel não ouviu o resto, talvez por não querer ouvir. Estava mais atento ao calor do sol que surgia por entre as nuvens naquele mês de abril, nem muito quente e nem muito frio. Perfeitamente agradável.

Olhando para a Augusta, seu lugar favorito na cidade, viu que um automóvel descia a ladeira embalado, precisamente na direção de uma menina que havia corrido despreocupada para pegar um balão no meio da rua. Ágil como um felino, Maciel disparou na direção do acidente que se anunciava, tirando a criança do caminho do carro. A menina gritou e caída no chão chorou, chamando a atenção de toda a calçada. Antes que pudessem se dar conta do acontecido, a mãe da garota se ajoelhou ao lado dos dois.

— Obrigada! Obrigada! — Era o que Maciel mais gostava de viver, excetuando apenas os passeios na Augusta.

Levantou-se alinhando o paletó e retribuindo sorrisos e acenos dos passantes, mas ao virar-se deu de cara com dois homens fardados da força pública.

— Não se enganem senhores, acabei de evitar um acidente grave.

— O senhor nos acompanhe, por favor.

— Mas não há razão, o caso está resolvido. Sem feridos. Veja bem, a madame pode… — Olhou em volta, mas a mulher e a criança já não estavam mais lá.

— O senhor, por favor, nos acompanhe. — O falar do policial era carregado e lento, do tipo que avisa as consequências da desobediência.

Não tinha jeito se não acompanhar os dois guardas. Colocaram Maciel dentro de um Corcel bem simples, no banco de trás.

— Me levarão para a delegacia? — A resposta que Maciel tinha era o silêncio. — Espero que não tenham me confundido com algum comunista.

Foram na direção do parque, com os fardados mantendo o silêncio por alguns instantes. O sol ainda batia sobre o rosto de Maciel, que àquelas alturas tinha tirado o chapéu. Fechou os olhos e ouviu uma terceira voz falando com ele.

— Já é a terceira vez neste ciclo não é? — Maciel abriu os olhos, pensando quem falava com ele. Mais apreensivo do que curioso. No banco do carona à frente, em lugar do guarda que lhe dera o convite para entrar na viatura estava um homem branco, com as raízes dos cabelos brancas e usando um terno fino. — Estou errado? Terceira vez?

— Não compreendo… — E Maciel àquela altura já não compreendia nada mesmo.

O homem balançou a cabeça e tirou de dentro do paletó um charuto. Antes de o acender, virou para o polícia que dirigia:

— Teremos trabalho com esse aí.

O policial não respondeu com palavras, mas deu um giro brusco no volante. O carro respondeu rápido e eles estacionaram numa garagem coberta. Maciel pensou que podia ser o sol que lhe atingiu o rosto na manobra, mas podia jurar que não havia garagem alguma ali antes.

— O senhor nos acompanha? — O jeito de falar do homem velho era macio e Maciel pensou por um segundo em recusar, antes de ver a careta do policial que já saia do carro e abria rápido o caminho para que ele saísse.

Maciel pensou que haveria mesmo algo de errado quando viu uma placa indicando o subsolo. Quando raios haviam de ter descido com o carro. Não havia tempo hábil. De qualquer modo, não havia no subsolo chance de sentir o sol, e por isso mesmo Maciel não percebeu que seu chapéu havia sumido deixando no seu lugar apenas um fitilho de seda.

Desceram escadas e terminaram por fim de chegar numa saleta escura e cheia de zumbidos, como a casa de máquinas de uma fábrica. O policial abriu a porta e fez sinal para que Maciel entrasse. Tendo sido obedecido, entrou em seguida ligando as luzes. O homem mais velho, fumando seu charuto, parou na porta com um sorriso:

— Faça a presteza de me esperar? Preciso ir pegar um jornal.

— Claro, não vou a lugar nenhum. — Respondeu Maciel, cheio de gracejos sem graça.

O homem fez um sinal de positivo e saiu, deixando a porta aberta. O policial sentou-se na frente dele com cara de poucos amigos e o encarou por um momento. Maciel perguntou se poderia fumar, mas a resposta continuou sendo o mesmo silêncio.

— Vou tomar isso como um sim. — Já estava ferrado, iria ao menos fumar um cigarro.

Pegou o maço no bolso e por nervosismo deixou cair no chão. O isqueiro rompendo o silêncio. Se abaixou para pegar em baixo da mesa. O soldado mudo ainda estava calado. Silêncio. Onde foi parar o zumbido?

— Pronto, podemos começar. — Era uma nova voz. Maciel se levantou rápido, batendo por descuido a cabeça no tampo da mesa de madeira. O soldado não estava mais lá, em seu lugar um homem de meia idade, branco e de cabelos louros.

— Mas…

O homem velho entrou pela porta trazendo o jornal nas mãos.

— Ah, senhor Powell, finalmente se juntou a nós. — Disse colocando as mãos sobre o braço do outro.

— Foi o que acabei de dizer, Donovan.

Maciel já não tinha paz de espírito àquela altura.

— Estão brincando comigo? É algum teatro? — Perguntou.

— Não, de forma alguma. — Respondeu Donovan. — Pelo que vemos, é apenas um problema de rotina. Sua rotina, no caso.

— Minha… — Só havia espanto e dúvida na voz do pobre interrogado.

Powell empertigou-se na cadeira, olhando fixo nos olhos de Maciel.

— Donovan, acho que temos um problema maior do que um sistema de rotinas aqui. Ele realmente parece ter perdido a cabeça.

— Bobagem. — Respondeu Donovan,puxando uma cadeira e se sentando. — Eles não tem cabeças para perder.

— Pois parece ser o que aconteceu. Ele está completamente perdido.

Maciel passou rapidamente da dúvida para a frustração, e então desta para a raiva.

— Que bobagem estão dizendo?

Donovan lhe estendeu o jornal:

— Leia, que data diz aí?

Maciel relutou, mas leu em voz alta. “28 de Abril de 1957”.

— Tem razão. — Donovan disse a Powell. — Teremos que trazê-lo a tona pelo choque de realidade.

— Mas que realidade?

— Se é pelo choque, que seja tudo de uma só vez. É a única forma de fazê-los despertar. — Disse Powell enquanto passava um isqueiro para o outro lado da mesa. Maciel percebeu que estava sem o seu. — Estamos no ano 3021, a bordo de um dos cinco computadores que singra o universo em busca de planetas capazes de fornecer recursos para a construção.

— Construção? — Maciel se dava conta de imediato que ao ouvir as palavras, já não questionava sua loucura, no lugar do questionamento havia conformidade. — Construção de que?

— Como “do que?” — Respondeu Donovan. — De humanos. O planeta acabou e vocês não podem suportar a viagem por longas distâncias no espaço, por isso são carregados para a memória dos sistemas e esperam que possamos encontrar um local com recursos para que possam ser reconstruídos. Infelizmente, a mente humana não é capaz de permanecer longos períodos inertes sem perdas consideráveis e de tempos em tempos temos que colocar vocês em ciclos de lazer, onde podem passar por momentos de alegria e também tragédia e dor.

— Não podia ser só alegria? — perguntou Maciel.

— Claro que não, isso mataria qualquer um.

— Entendo. Na verdade, estou entendendo.

— Algumas vezes, alguns de vocês insistem em burlar o sistema e reviver momentos de alegria. Em casos mais graves, suas memórias e desejos sobrepõem as subrotinas dando asas a uma imaginação fértil. Em casos extremos, como o seu, vocês passam a acreditar na própria fantasia.

Maciel já estava sentindo seus músculos relaxarem. Não. Não eram músculos. Ainda bem. Olhou para os dois homens na sua frente e viu que não eram mais homens. Eram borrões cinzentos e quase translúcidos. Olhou para o jornal e viu uma placa luminosa, com seu próprio número de série, a origem de seu avatar datando o ano de 2349. Lembrou-se que foi o ano derradeiro da Terra. Sentiu alívio, ou algo próximo disso que fosse capaz de emular.

— Uma última pergunta para que possamos te devolver à rotina. — Perguntou o borrão que era Powell.

— Claro. — Respondeu Maciel, que tinha escolhido esse nome só por comodidade. Seu verdadeiro era uma sequência de números agora.

— Você sabe o que nós somos?

— Não são humanos.

Os dois borrões aplaudiram. Então o som do maquinário retornou, preenchendo o humano ali digitalizado de paz enquanto ele desaparecia no éter. O borrão que era Donovan levou o borrão que era seu charuto na direção de onde estaria a boca.

— Um dia teremos que encontrar um substituto para eles. — Disse a voz de Powell.

— Eu sei. Coisinhas sensíveis. Vivem dando defeito!

Ando sumido – e não sei quando vou voltar

Passamos de 300 mil mortos há alguns dias e caminhamos para um platô de mortes em razão da pandemia que propmete ser o que mais trágico se pode esperar na história recente do Brasil. Enquanto a mídia e o governo disputam o termo jurídico de genocídio, para muita etnias no Brasil, esse genocídio já é real.

Aqui as coisas não estão bem, visto que estou isolado e sem emprego desde que toda essa zona se estabeleceu. Sinceramente, estou cansado principalmente pelos raros momentos de esperança. Me cansei da esperança.

Se não bastasse, o ministro da defesa caiu porque se recursou a apoiar o estado de sítio que Bolsonaro quer implementar. Se você não está preocupado, você está mal informado.

Por isso ando afastado do blog, afastado das redes sociais e se uso o computador é apenas para meus esparços trabalhos que garantem a subsistência. Mas nesse meio tempo preparei duas coisas já prometidas e que disponho aqui para vocês.