Diário 07-08-2020

Neste blog, eu realizei um diário acerca da minha doença em março. Quem me acompanha aqui sabe que, ao menos por uma noite, achei que ia mesmo bater as botinas. Hoje, tendo superado o que quer que eu tenha tido, não recomendo a nínguém.

Apesar de não ter feito o exame, tenho certeza absoluta de que foi parte dos casos de Covid-19 no país. Além de hoje ter as sequelas da doença observadas em pessoas que tiveram casos parecidos com o meu, duas pessoas com quem mantive contato próximo dias antes de ter os sintomas mais graves adoeceram. Minha tatuadora teve sintomas e seu conjuge, internado, foi confirmado como tendo tido a doença. Um mês depois de eu ter me recuperado, recebi a notícia que um cliente, frequentador da loja e amigo, faleceu de crise respiratória. Eu passei pra ele? Não sei, tento não pensar nisso.

Nas redes sociais, a negação é a tônica daqueles que defendem a prevalência de um projeto político que premia a morte. A pandemia, politizada, faz aquilo que é preciso para a manutenção de um governo de viés autoritário: Desumaniza. O que é potencializado pelas redes.

Em março, mesmo doente eu já dizia que a tática seria a negação da realidade. Estou aqui só pra dizer que começou.

Lançamento – Duas Canções da Noite

Boa tarde, leitores….

… se aqui houver.

Compre aqui.

Trago a vocês essa belezura, que decerto alguns aqui já conhecem dos tempos que eu publicava os contos em partes no blog. Para minha alegria a série está prosperando e segue vendendo melhor do que eu imaginava no site do magnata Jeff Bezos – na sua cruzada infinita por destruir mercadinhos e pequenas livrarias.

A despeito do capitalismo tardio e de eu ter cedido à Sociedade do Cansaço – gostariam de um artigo sobre? Gosto de refletir sobre a obra de Byung Chul Han – ajudem este escritor a manter o aluguel em dia. O conto pode ser adquirido pelo valor simbólico de R$ 3,00 reais. Não se esqueçam de compartilhar e avaliar a obra… se lhe pintar a vontade de fazê-lo, é claro.

Diário 19-07-2020

Coincidências macabras de noites insones… A quarentena fez com que eu voltasse a conviver com o terror noturno. Tenho pra mim que devido, além do clima geral do momento, ao fato de que voltei a consumir muitas narrativas que favorece os sonhos no meu caso. Sonhei com algum tipo de contato de 3º grau, com duas sombras paradas na beira da minha cama. Na verdade, dois casacos que pendurei pra secar na janela há uma semana e ainda estão lá. Pacote completo… paralisia do sono, falta de ar e um diálogo vivido com as criaturas aterrorizantes. Até que cansei e decidi despertar, consciente de que tudo aquilo era um sonho.Quando acordo de uma dessas, não costumo dormir bem depois então peguei o celular para continuar um filme que tinha deixado pela metade. Assim que abri o app do serviço de streaming que não paga nóis o vídeo começou a correr com um personagem a perguntar: “Estava tendo pesadelos?”

Diário 14-07-23

No dia de hoje eu apenas existi. Não cozinhei, não li nem escrevi. A situação está tão caótica que os primeiros versos desse diário rimam. Sim, versos, que decidi fazer o deste dia em prosa poética. Pura bobagem, eu sei. Mas me perdoem, não é que seja mais fácil a um poeta falar em termos de poesia. É que estando apenas existindo, o que flui não faz parte de mim, mas daquilo que mais estou cheio.

Queria que o dia inócuo que passou fosse dedicado ao ócio, mas nem ao ócio me entreguei. Me entreguei a algo que não é igual ao nada, mas sim ao profundo vazio da ausência dele.

Microconto – Monstro

Moacir não queria bem o mal de ninguém, era o que dizia. O problema dele era o sobrinho petista. Por causa do guri, agora a casa da irmã vivia cheia de viado e sapatão, esse povo esquerdista…
“Nada contra”, ele sempre dizia, “Que cada um viva sua vida.” Mas daí a deixar sua menina ver dois homens se beijando era demais. Moacir tinha bebido aquele dia, quando jogou uma cadeira sobre o próprio sobrinho. Deu ruim, a família inteira ficou contra ele. Mas Moacir sabia, confiava que a maioria ainda pensava como ele. Estava esperando o tempo passar pra família aceitar ele de novo. Por isso cravou na urna, pra não precisar jogar cadeira em mais ninguém. Coisa de liberal, essa coisa de terceirizar.

Não esperava que terceirizados tivessem que trabalhar em meio à pandemia. Moacir ainda não aprendeu, talvez nunca vá, que quando você alimenta um monstro nunca tem comida o bastante pra dar. O monstro sempre engole você também.

Diário 11-07-2020

Como autor, sinto que estou dando meus primeiros passos. Tendo lançado meu primeiro livro para a venda há uns meses, duas falhas foram as que mais percebi nos meus textos e que mais foram evidenciadas pelos leitores.- Primeiro o número alto de erros de português, fruto da minha negligência e da falta de revisão profissional. (Nesse ponto, quero fazer um agradecimento público ao amigo Márcio Gouvêa, a quem sou eternamente grato pelo puxões de orelha que eu tanto preciso)- Segundo, minha insistência na criação de uma língua pro meu universo fictício. Por um lado, isso se deve ao complexo de Tolkien na dita “alta” fantasia. Eu que tanto critico, sou também um fruto dela. Este post é para reconhecer isso, da maneira como sempre lidei com meus defeitos… fazendo troça deles antes que façam. Ambos os problemas estão em vias de serem solucionados, o carinho que tenho pela escrita tem sido motor para estudo da língua (das línguas) para que nas próximas obras a experiência seja ainda melhor. É uma promessa.E se você quiser acompanhar essa evolução, basta comprar meus livros na Amazon e seguir meus perfis nas redes sociais. Logo teremos um anúncio legal.

Poema – Sem título

Penso, eu sei, talvez demais
talvez de modo insone
insone, não insonso,

que cada pensamento
de nasce madrugada
adentro é um respiro
de uma pouco mais
de vida nesse
apartamento

Penso, é verdade,
e talvez tanto tarde
a colocar tais ideias
no papel que elas
voam sozinhas

Vão procurar quem
pense menos
quem permita
a si os versos
feitos de uma
só vez

Assim, sem pensar
na varanda,
de tardinha

Poema – Selfie

-Ao Pessoa

Eu fico pensando quantas vezes isso foi dito
Eu, que tendo visto e lido já deveria ter calejado
Mas nunca conheci quem tenha sido surrado
Quem tenha posto os pés na lama
Ou, tendo sido humilhado, calado
É que assim como outro, antes de mim
Se não me calo é tão mais ridículo
Sim, sou eu ridículo
Usando máscaras inúteis

Parasitismo, é simples
um reles parasita em meio
um abundante e belo prado
Como um inseto encrustado
num zebu bem formado

Faz dias que não tenho dispor para um banho
Para pôr a face nas janelas
Pra ver o mundo através do sol radiante
Meus amigos, todos príncipes, tem um mundo
Limpo, lindo e de causar estupor no coração
Seu mundo não acaba, ó príncipes
E eu me pergunto, onde há gente por aqui?
Onde estão aqueles que possam admitir a própria vileza?
Todos prontos em apontar dedos e sorrir
Não eu, eu que na torpeza me resguardo
Trago apenas os sujos ao meu lado

Microconto – Noites de carnaval

Não é que diante daquele espelho ela se via. Não é que nunca tivesse olhado num espelho antes. É que se ver, isso sim era uma coisa difícil. Sentia-se finalmente plena, sozinha e sem máscaras, mas como era carnaval, vestiu logo novas e foi, deixando um bilhete para quando voltasse colado ao vidro feito de reflexos. Dizia o bilhete: Me espere voltar.
Ah, as noites de carnaval!