Giro da semana – 23/08 até 29/08

Esta semana, como todos já devem estar sabendo, o trailer do novo filme do Homem Aranha foi disponibilizado na internet.

Você também está afundado até o pescolo com toda essa cultura de rumores e vazamentos? Uma das coisas que certamente marcou esse momento que vivemos na “Era da informação” é a forma como noticias falsas, boatos e possíveis vazamentos se espalham como fogo no mato seco. A tão chamada Lorota, que os gringos embalaram no termo fake News, é só um dos sintomas de uma doença muito maior.

Fato é que a industria do cinema, a televisão e dos videogames são uma fonte aparentemente inesgotável de boatos que despertam desejos ou medos de fãs que aguardam com ansiedade a chegada de um produto. Se na era dos papparazzi isso se voltava a boatos sobre a vida dos artistas, na era da auto exposição todo o foco se volta para o possível, para aquilo que não aconteceu e que portanto não pode ser confirmado. Mais do que isso, uma vez confirmado, perde-se a graça. O sucesso vem num átimo. (Falando nisso, esse é o nome do nosso podcast, conheça ele.)

Digo tudo isso para recomendar um vídeo do professor Alexandre Linck. Acesse aqui.

Abaixo as verdades sagradas!

Nos últimos dias, a Prefeitura de São Paulo elaborou uma lista com 41 monumentos da cidade considerados controversos por homenagearem pessoas ligadas a momentos sensíveis do passado brasileiro — referidos aqui monumentos ligados à escravidão, o massacre indígena, o período colonial e a ditadura militar.

O debate cresceu depois que a estátua do bandeirante Borba Gato foi incendiada no último mês, aquecendo o debate e mais uma vez demonstrando como tudo nesse país gira em torno dos interesses da elite.

De acordo com a administração municipal, a presença dos monumentos na lista não indica que a prefeitura pretenda “removê-los, condená-los ou mesmo alterá-los”. Esse assunto desperta muitos amores e dissabores. Mas nele é preciso marcar uma posição. Aqui no blog há um texto traduzido a esse respeito, e que creio dizer que mais e melhor do que eu possa dizer está lá expresso.

Nem todos são favoráveis à destruição de monumentos. “Pode-se derrubar todos os monumentos do mundo, mas isso não muda necessariamente o que aconteceu. Nós ainda somos obrigados a ter esse passado na memória”, diz David Blight, professor de história da Universidade de Yale, especialista em estudos sobre afroamericanos e a guerra civil, em entrevista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Fato é, derrubar ou destruir monumentos é um ato tão legítimo e histórico quanto levantá-los. Quem concorda comigo é o mais celebrado escultor e arquiteto Brasileiro, Oscar Niemeyer. E ele não diz isso distante do tema, e nem advogando em causa própria. A maior parte dos ataques a monumentos históricos pelo Brasil se caracteriza por destruições de obras que homenageiam a classe trabalhadora. O monumento Eldorado Memória, por exemplo, foi alvo de ataques que resultaram na sua destruição no mesmo ano da inauguração.

Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a obra de 1996 foi doada ao Movimento dos Sem-Terra, em homenagem aos trabalhadores rurais mortos no conflito de terras do mesmo ano em Eldorado dos Carajás, Pará. Logo após sua inauguração em agosto de 1996, o monumento Eldorado Memória recebeu ameaças de grupos conservadores da região e, em setembro, a obra foi destruída e nunca mais reerguida.

O monumento não foi a primeira experiência de Niemeyer com resistência às obras. Em 1989, o arquiteto projetou o Memorial IX de Novembro em homenagem aos três trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional mortos na Greve dos Operários de 1988.

Um dia após a inauguração, em Volta Redonda, Rio de Janeiro, o Memorial IX de Novembro foi destruído por um atentado a bomba. O prefeito Vanildo de Carvalho decidiu pela reconstrução da obra, e Niemeyer adicionou a inscrição: “Nada, nem a bomba que destruiu este monumento poderá deter os que lutam pela liberdade e justiça social”.

No caso do Borba Gato, que foi imediatamente “socorrido” por empresários que se se prontificaram a restaurar a estátua, o motoboy Paulo Roberto da Silva Lima, o Paulo Galo, e de sua companheira, a costureira Géssica Silva Barbosa permaneceram dias presos, de maneira absolutamente arbitrária e ilegal, enquanto a sociedade ainda se silencia diante do vandalismo à obras que prestam homenagens aos trabalhadores do Brasil.

Já que falei de Niemeyer

No podcast dessa semana, dei conta que em matéria na Ilustrada, da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo noticiou que uma pintura feita pelos grafiteiros Os gêmeos na fachada do Museu Oscar Niemeyer, projetado pelo próprio arquiteto em Curitiba, deixou o bisneto dele Paulo Sérgio Niemeyer “em prantos!”. “É uma decepção. Eles deveriam respeitar a arte do próximo, mas não tiveram essa sensibilidade”, diz o também arquiteto e presidente do Instituto Niemeyer.

“É muito frustrante. Dá uma sensação de impunidade, de que tudo é permitido. Eles tinham que ter esse bom senso”, segue Paulo, que é conselheiro do CAU-RJ (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro). “É uma afronta”, afirma ele, que diz estar avaliando medidas cabíveis contra a intervenção dos grafiteiros.

O desenho, concluído na quarta-feira (25), foi encomendado pela direção do próprio museu como parte da exposição com trabalhos da dupla que será inaugurada no dia 17 de setembro. Para Paulo, eles deveriam ter se negado a fazer a intervenção em respeito à obra de seu bisavô.

A dupla Osgêmeos, formada pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, já expôs em diversos países e fez interferências na fachada da galeria Tate Modern, em Londres, e em um castelo na Escócia. Procurados, eles não quiseram se manifestar sobre as críticas do herdeiro de Niemeyer.

Hoje, vejo a notícia de que o papelão do senhor Paulo Sérgio é ainda mais ridículo e que mancha bastante a memória do avô. A pessoa pretende acionar a justiça para retirar uma intervenção temporária:

“Eu gostaria que fosse apagada e que eles mostrassem, e o próprio museu, que têm capacidade de fazer isso respeitando a obra do Oscar Niemeyer”, afirmou Paulo, em entrevista à RPC.

Longe de evocar a pessoa de Niemeyer, que com as pessoas sempre podemos nos decepcionar, retome na memória como foram as posturas artísticas do homem. As citamos agora a pouco. Paulo Sérgio nem por um segundo as representa. É um vexame.

‘Bebê’ que aparece na capa de Nevermind processa Nirvana por pornografia infantil (Eu juro que não é piada)

Estamos agora em 2015, auge do principio da decadência ignorante das redes sociais no Brasil. Um jovem que desconhece a capa do álbum “Nevermind” (1991) da banda Nirvana virou piada na web. Após questionar a enquete promovida pelo jornal O Estado de São Paulo em comemoração ao Dia do Rock, celebrado no dia 13 de julho, o usuário foi criticado por internautas. 

@Estadao o que que tem a haver um bebê com o p* pra fora numa piscina com o Dia Mundial do Rock???“, questionou o rapaz no Twitter. Todos rimos. Mas isso está no passado, uma piada ainda maior surge no horizonte da história de um dos amis importantes álbuns do rock.

Spencer Elden, atualmente com 30 anos, acusa banda, fotógrafo, produtor e outras pessoas envolvidas na criação da icônica foto de pornografia infantil e cobra indenização de US$ 150 mil. Na argumentação do advogado, “O Nirvana decidiu usar uma nota de um dólar em um anzol como um adereço – depois de um amplo debate entre o uso de uma nota de um dólar, carne crua, um cachorro, e outros objetos comumente associados a interesses lascivos”.

Em 2011, no aniversário de 20 anos do lançamento de Nevermind, Elden aceitou recriar a icônica foto da capa do álbum. Dessa vez, no entanto, ele foi clicado com um short de banho.

É mole?

Poema – Sirene muda

“Segundo a Forbes, Brasil tem 40 novos bilionários em 2021, ano de pandemia. Alguma coisa está fora de ordem.” – Marcelo Rubens Paiva, no Twitter

Toca a sirene e o mundo muda
muda o mundo até que
se inunda
de caos
de lama
abunda
a ojeriza que a tudo
torna um
eterno absurdo

E quando a sirene
soa mais
uma vez
pela segunda
terceira
quarta

(…)

Parece que
se fezojeriza
muda

e o mundo
quando
muda

já encontra absurdos
quem poderia mudar
seus rumos

Poema – Sem título

Quero um remédio pra dormir às dez
e um tocador pra
me acordar antes
do sol raiar

Quero uma fórmula
para ficar são
e outra para meter
a razão às favas

Quero um comprimido
para ser sonâmbulo
E perambular
pela cidade
que foge
dos seus dias

Não quero nada
para ficar hétero
digo ereto

Já fizeram
isso
há muitos
e muitos
vícios

Quero uma dose
homeopática
de Esperança
O que quer
que eu queira
dizer com isso

Quero a cura
para todas as
outras curas

Uma canja
Uma tijela
Uma noite
de sono

E uma bela
senhorita

Giro da semana – 16/08 até 22/08

Essa semana foi exaustiva, com projetos inscritos em editais, divulgação da campanha da antologia “Espadas e Feitiçarias – contos medievais”, e no maior evento da MINHA VIDA, eu finalmente estou vacinado.

Vamos sem delongas.

Pergunta no Roda Viva mascara racismo estrutural

Em entrevista no “Roda Viva” da última segunda, o sambista Martinho da Vila, um dos maiores nomes da música popular do Brasil, foi questionado sobre o aumento da presença das milícias nas escolas de samba do Rio de Janeiro. A abordagem gerou uma discussão sobre questionamentos feitos a artistas negros em torno de questões sociais que não necessariamente seriam parte de suas obras.

É bastante comum que artistas, na figura de intelectuais, sejam questionados sobre os mais diversos assuntos. Mas vamos concordar que encontramos aqui uma certa tendência. Tendência essa que perpassa o racismo estrutural que é a argamassa da nossa sociedade. Vera Magalhães, a autora da pergunta, em outra ocasião já havia feito uma pergunta semelhante ao rapper Emicida no Roda Viva: “O Rap não é condescendente com o crime organizado?” Ou algo do gênero.

Apontado como uma tentativa reiterada de associar a cultura negra ao crime, esse tipo de associação vem sendo discutida e apontada há bastante tempo por intelectuais e pensadores.

Fundação Palmares vai tirar o Machado de Xangô da sua logo

E não se passa uma semana sem uma tentativa do governo de minar nossa cultura.

A Fundação Cultural Palmares abriu na manhã da última terça-feira (17) um concurso para substituir a logomarca da instituição, hoje estampada pelo machado de xangô. A instituição busca um símbolo “que remeta única e exclusivamente à nação brasileira”, conforme descreve o edital.

Sob a justificativa de o Estado ser laico, o presidente da fundação, Sérgio Camargo, já havia sinalizado desagrado com a presença do orixá, oriundo do candomblé, na arte. “O logotipo da Palmares sempre me desagradou, mas eu achava que era uma palmeira estilizada. Santa ingenuidade!”, afirmou no Twitter em maio.

Desde que assumiu o comando da fundação, Camargo trava uma cruzada ideológica. Em junho, ele anunciou o expurgo de livros do acervo da instituição considerados esquerdistas ou imorais, de autores como Marx, Engels e Lênin. Já escrevi sobre isso aqui.

Artistas afegãos manifestam preocupação com a volta do regime dos Talibã.

Desde que o Talibã retomou o poder no Afeganistão depois de 20 anos, artistas do país têm manifestado preocupação com perseguição à comunidade e até acusado ataques promovidos pelo grupo extremista: “Os afegãos que recordam a brutalidade do regime Taleban temem com razão a volta dos insurgentes”, afirmou o escritor afegão-americano Khaled Hosseini, autor de livros de sucesso como “O Caçador de Pipas”.“Os afegão conhecem os Talebans. Recordam do que aconteceu da última vez que chegaram ao poder e tem motivos para ter medo.” declarou Hosseini à BBC..

Segundo o autor, os EUA deveriam aceitar refugiados e afirmou que Joe Biden não tem demonstrado empatia.

Cinemateca Portuguesa realizará homenagens e organiza exibições de filmes brasileiros

Entidades portuguesas foram muito importantes na restauração do Museu da Língua Portuguesa, que sofreu com um incêndio em dezembro de 2015, e agora num gesto de amizade, a cinemateca Portuguesa fará  um ciclo de exibições de filmes brasileiros em homenagem à Cinemateca Brasileira. O projeto, previsto para ocorrer quinzenalmente, estreia com a projeção de “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha, no dia 6 de setembro.

À Folha o diretor da instituição, José Manuel da Costa, afirmou: “No cinema, o patrimônio não tem fronteiras. Nós sentimos esse problema como se fosse nosso e vamos alertar até que a situação se resolva”.

Na Secretária Especial de Cultura, ainda não se tem ainda nenhuma ação concreta em favor da Cinemateca Brasileira.

Carlinhos Maia terá que indenizar artista após vandalizar pintura

Em 2019, Carlinhos Maia se hospedou em um hotel em Aracaju (SE) e ao gravar alguns vídeos nos Stories do Instagram, ele rabiscou uma das pinturas que estavam na parede da suíte após dizer que havia passado a noite assustado com a obra. O quadro original mostrava uma mulher sem rosto segurando um buquê de flores. Carlinhos decidiu usar uma caneta para desenhar olhos e boca na personagem enquanto era filmado por seu marido, Lucas Guimarães.

“Os hóspedes desse hotel vão me agradecer”, declarou Carlinhos na época.

A decisão do juiz Cristiano José Macedo Costa, da 11ª Vara Cível de Aracaju. “O ato praticado pelos demandados implicou, por si só, na modificação da obra de autoria da requerente e, por consequência, na violação do seu direito moral de integridade, o que é suficiente a ela conferir o direito ao ressarcimento de quem, sem sua autorização, assim procedeu”, escreveu o magistrado em sua decisão.

Carlinhos terá que pagar à artista plástica foi estipulada em R$ 30 mil, mas o valor será ainda maior, já que será acrescida a multa de 1% ao mês, contados desde 27 de outubro de 2019, quando a inicial foi protocolada. Além disso, ele também terá pagar mais R$ 4,5 mil de custas processuais e verbas honorárias.

Vale ressaltar que a proprietária do hotel, que também é ré na ação, foi obrigada a devolver a obra a Lau Rocha, além de pagar a indenização à artista.

Poema – Sem título

Minha mente fervilha, mas claro,
está ao lado do inferno
E ao lado do inferno,
cavalgam meus pensamentos
Cavalgam eles pois não há brisa
Se houvesse, com velas abertas
sobre a areia quente navegariam

Um selvagem pela areia quente
se aproxima
E eu, por saber que há fora de
mim nenhuma outra selvageria
reconheço logo o que guarda
o rosto que se aproxima

– Por quê não cavalgam as
estrelas os seus pensamentos?

Tolo, não cavalgavam as estrelas
pois visto que eu não as conhecia
Mas andavam sobre a areia quente
sem pisar em desertos, pois foi
mesmo na areia quente que enterrei
meus dentes de menino

– Pois vá – Disse o bárbaro e sábio –
te dou o conhecimento das estrelas,
de doutos e principes que com elas
aconselharam-se. E peço aos
passáros que sejam seus guias

Quase dei ouvidos à voz da selvageria
– que era minha – mas temi.
Temi e fiquei.
Errando pela areia
eu ia.
Mas, ainda,
os mesmos
pensamentos
eu seguia.