Notas do autor

Diário: Por que não cumpro promessas?

Sou um tratante, essa é a resposta para a pergunta acima. Esta, por sua vez é apenas uma desculpa para que eu me permita uma enorme digressão já no início do post. Poderia me demorar todo um paragrafo para dizer apenas que estou me liberando da promessa de um conto por semana.
Não escrevi isso na virada do ano mas legislei a mim mesmo que na primeira vez que eu faltasse com o propósito eu o colocaria abaixo. Não pensei que seria tão cedo.

Bem, se cabe um pouco de biografia vale dizer que esta semana vi encerrado um namoro que, se não foi longo, ao menos foi intenso. Não estou triste nem desanimado pelo ocorrido, mas também poderia atribuir ao desequilíbrio emocional causado o fato de não ter conseguido escrever o conto da semana.

Poderia também culpar o processo de revisão do meu primeiro livro, que deve ser lançado em março, a aos contos que são sua sequência no universo de Caella. Também não seria verdade. Fato que não escrevi por um misto de falta de tempo, cansaço e desânimo. Não gostei dos últimos contos que escrevi. Simples. Assim, me pouparei de escrevê-los. Talvez os revise, talvez eles voltem.

Mas nada de meta anual agora, talvez eu faça metas mensais agora. Sugestões?

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Contos

Conto -Tiro de misericórdia

-Vai cara, atira! Tá muito errado se acha que eu vou implorar pela minha vida. Ela não tá valendo nada. É um favor que ce me faz.
Tico tremia. Era pra ser só um assalto “de rotina”. Precisava levantar uma grana pra pagar o pó do coió. Nada mais fácil do que pegar uns celulares de uns idiotas que andam com eles nas mãos à noite.
Ele e o cabeção sempre deram conta. “Por favor moco, não me machuca”, “não faz nada, por favor”, “pelo amor de deus moço, só deixa eu ir”.
Ouvira tantas vezes que já tinha protocolo,  quase um vendedor.
-Calma, a gente não vai te machucar. Só passa a carteira e o celular.
A carteira era um bônus, quase nunca tinha nada, mas pagava o álcool do carro e dos dois depois da noite acabar. Dessa vez, a resposta foi diferente:
-Meu celular tá aqui na minha mão. Mete bala que ce pega.
O rapaz não tinha nada de especial, não era forte, nem alto, nem tão gordo. Vestia roupas comuns e seu aparelgo celular parecia comum também.
-Vai cara, decide. Ou ce me mete bala e leva o celular, ou vai embora e me deixa em paz.
-Mata esse porra. – Calma cabeção, pensou Tico, sem saber como reagir.
-Isso, vai lá.  Me mata. Mas eu vou dizer uma coisa, gravei o rosto de vocês dois. Se eu descer pro inferno e o inferno existir…
Pow!
Cabeção que atirou. Que porra era aquela, pensou Tico vendo o corpo se estatelar no chão. Sua garganta se ressecou. O tiro tinha pego na garganta, o rapaz caíra no chão e segurava a ferida com uma mão que jorrava sangue. Agora seus olhos traziam desespero. Tico não sabia se ele tentava falar ou respirar. Não ia durar muito.
-Pega tudo porra, e vamo embora.
Cabeção tinha razão. Tico de ajoelhou pra pegar o celular e a carteira. Ouviu a voz do rapaz sussurando: “O inferno existe mesmo.”
A espinha gelou, olhou para o rosto do defunto. Já havia partido, teriam sido suas últimas palavras?
Cabeção correu, Tico correu atrás dele. Até o carro parado num beco.
-Bora bora bora.

Parecia um final, podia ser um começo.

Ontem eu dei a entender que o conto de hoje seria sobre meu universo fictício chamado Caella. Bom, deu errado.
Eu estava confiante, pois estou escrevendo um conto longo para fechar a tríade do Semeador e do Encantador de Lobos. Mas ontem foi um dia conturbado e veio o bloqueio. Já havia desistido de publicar algo hoje, até que essa historinha me veio no metrô. 
Peço desculpa pelo vacilo, mas agradeço a boa vontade de quem fica. Ainda mantendo o compromisso de um conto toda quinta, às 15 horas.
Em série, Textos

Trechos – Euródio

Esquenta para o conto de amanhã. Faz quase um mês desde que publiquei algo no blog sobre Caella, meu universo fantástico fictício. 
O que segue abaixo são trechos de um material de suporte que ando escrevendo, tal qual as Crônicas do Primeiro Rei.

Estres trechos são parte dos textos de um filósofo fictício deste universo e são uma das pedras pilares do pensamento que rege os personagens. Como no nosso mundo, são cheios de preconceito e fundamentam violência.

 

 1. O reinado da dinástica família Atzikwe durou cerca de duzentos e setenta anos após o cessar dos rumores de guerras. Seus domínios se estendiam por toda a extensão da baia conhecida por Dunas Douradas e corria companhando a subida do rio O’eonton até sua cabeceira nas matas da planície da Correia.

Elide Atzikwe foi o mais proeminente regente da família, senso responsável por uma aliança entre os povoados praieiros de pescadores contra uma ofensiva vinda das terras meridionais doze anos antes da chegada de Exchekieh.

A dinastia Atzikwe ficou conhecida, ainda, pela boa relação com o ultimo moldador conhecido a ser visto em Caella. O semeador Eoghan fez morada nos limites dos assentamentos praianos por cerca de 100 anos, até seu desaparecimento próximo a queda de Aura Caella.

2. Um aglomerado de famílias com um sistema de governo comunal e de liderancas sazonais, os Ya’du’la formam uma comunidade bélica poderosa nos mares do sul de Caella. Segundo levantamento realizado nas bibliotecas dos cronistas do rei em Merevel, os Ya’du’la já haviam se aventurado para fora de Caella antes da grande descenção. Se o feito for verdadeiro, pode ter sido realizado apenas por ligações demoníacas com bestas dos ares e dos mares.

Entre os Ya’du’la é comum o uso de magia negra e da Escuridão, embora suas ilhas estejam no ponto mais distante da barreira. Isto se explica pois nos tempos primevos, antes da separação entre a lua e o sol, a escuridão varria toda a Caella espalhando sua magia.

Do povo de Ya’du’la, descendem todas as maldições da terra.

3. Por muitos anos servos, os Attha lutaram ao lado dos Atzikwe contra as invasões das Terras meridionais vindos pela foz do rio, e contra os navios Ya’du’la vindos do mar. São um povo forte, provavelmente também contaminados pelo sangue demoníaco e afoitos pela mestiçagem. No ano de 45 após a queda de aura Caella, realizaram uma enorme migração por conta de uma seca prolongada no sul. Seus filhos ainda vivem entre nós.

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No reino de Caella, assim como no nosso mundo, há um processo enorme de naturalização da violência contra o diferente. Se no primeiro século os homens desenharam suas fileiras de batalha contra anões, após a queda do império de Aura Caella começou a surgir um grande sentimento de rejeição de grande parte do continente para com seus irmãos sulistas.
As idéias de Euródio, nobre e estudioso fundador da Escola que leva seu nome, mestra de vários e notáveis mestres dos novos reinos, são contestadas efetivamente por várias novas vozes, mas ainda se fazem notar mesmo nas relações mais banais.

Crônicas

Átimo – Bacanal

José, tendo se reecontrado de novo com Marta, dei de ombros para o seu matrimônio e enveredou por uma linda e deliciosa história extra-conjugal. Guardou segredo é claro, exceto para seu diário e para um amigo, Roberto, do trabalho, a quem confiava em absoluto.
Mas Roberto tinhaum padrão moral elevado e ao saber da queda sem remorso do amigo tratou logo de procurar por Nícia, esposa de José, que sabendo da escapada do marido tratou de levar Roberto para um motel na Lapa. Roberto, que tinha sua moral em primeiro plano, tratou de por sobre ela um pano – quente – e se deliciou na quentura da vingança de Nícia.
Logo que ficou sabendo, quis participar uma tal de Patrícia, com quem Roberto se amigava. Mas não queria fazer um mènage, pediu por outro homem ao menos para que ela podesse aproveitar.
Roberto chamou José, seu amigo, que vendo a esposa em meio àquela homenagem heládica, pensou que isso sim era vida.
Mas não era, eram só os campos elísios. O barco já havia partido no sonho.

Crônicas

Crônica – Autores entediados se cumprimentam no asfalto

Dos recursos clichês usados por escritores entediados, não há um que eu odeie mais do que o recurso de dizer-se um escritor com dificuldades de escrever. Há ali certo desejo de metalinguagem que não se cabe a si mesmo, detão batido que está o tema. Osofrimento do escritor diante do papel em branco como figura exasperadora da criação artística.

Ora, se um autor encontra-se perdido diante da folha, que abra outras. Despeje toda a sua frustração sobre páginas já escritas de outros autores. Não sobre si mesmo. Não há nada nele que se baste para que possa escrever? Nem soltar os dedos sobre o teclado e ouvir seus tectectec infinitos enquanto as palavras fluem num ritmo constante, transformando-se de impulsos elétricos na mecanicidade de um movimento para tornar a ser eletricidade potencial na forma de uma sequencia aberto/fechado?

Não, não me venham os pretensos autores dizerem suas metáforas mal ensaiadas sobre a escrita. Já me o fizeram os grandes. Pensam que tem mais a me ensinar do que Aristóteles ou do que disseram sobre a escrita Kafka, Dostoiévski ou Guimarães Rosa através de suas narrativas sem nunca se disporem a romper com o acordo do véu.

Não, seu recurso preguiçoso para atingir sua cota diária de caracteres não me interessa, me entedia… e por isso mesmo é sobre ela que se cria essa crônica. Não sou muito diferente de você.

Em série, Textos

Literatura de viagem #1

Com o atraso já habitual de qualquer viagem em grupo, a partida das 18:30 tornou-se a partida de 21:30. O carro estava cheio, com nossas barracas e colchonetes ocupando todos os espaços onde os ocupante não estavam. Há alguns anos criei o hábito de viajar até Tiradentes – 190 KM de Belo Horizonte – para o festival de cinema contemporâneo que lá acontece. Sempre acampamos na entrada da cidade, numa área de camping às margens do Rio das Mortes. O nome soturno pode dar ares de aventura à viagem, mas é pura enganação, o camping tem todo o comodismo que precisamos – chuveiros, almoço e café da manhã, energia elétrica.

Para me acompanhar na viagem, levei São Bernardo de Graciliano Ramos, livro que

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Trilho de trem sobre o Rio das Mortes

considero um calhamaço de 272 páginas. Isso por que o texto de Graciliano, embora curto, possui uma densidade imensa. É conhecida a frase do autor  que compara a técnica de escrita ao ofício das lavadeiras, que torcem até tirar toda a água das roupas.
Ler São Bernardo se potencializa pela distância da cidade. Não encontrei no centro histórico de Tiradentes, nenhuma construção que se remetesse diretamente à fazenda da história, que segue ainda intocada na minha imaginação, mas encontrei vários Paulos Honórios.

Sujeitos carrancudos, com o peso de serem homens nas costas. Me peguei pensando o quanto a autossuficiência pode doer num lugar parado no tempo. Mas os lugares não param, ao menos nunca encontrei algum.

Em São Bernardo encontramos esse encontro destruidor entre o passado e o presente, remetido na viagem entre o cinema altamente atual e a arquitetura da cidade de Tiradentes, tragando-nos para o passado.

Quando voltamos nos desentendemos, eu e meus amigos. Falávamos de relacionamentos – novos e antigos – e discutimos sobre o que era a natureza do amor num relacionamento. Meus amigos, idealizando amores sem fim não podiam entender meu cinismo. Entenderiam se eles também tivessem lido São Bernardo.

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Ruas de Tiradentes
Notas do autor

E Vale tudo que aconteceu em Brumadinho?

Muito me contenho há meses para não falar sobre política e acontecimentos cotidianos. Me privo de simplesmente escrever por embora eu me sinta compelido a falar coisas que, ao meu ver, são bastante pertinentes.

Mas não tem valor algum literário.

Por isso mantenho as opiniões polêmicas e meus comentários políticos no Facebook ou no Medium.  Mas não posso deixar de falar de uma tragedia que acomete diretamente a região onde eu vivo. Brumadinho é aqui do lado, sempre visitei o rio Paraopeba e no ano passado finalmente conheci o Inhotim. Conheço pessoas que vivem no centro da cidade, gostava de andar pelas ruas.
Hoje, estou sem informações sobre o que aconteceu e o que sobrou. Não há relatos precisos do número de mortos, do alcance da destruição e do impacto socioambiental.
O governo agiu rápido, muito mais rápido do que no caso de Mariana, – onde o volume do problema era bem maior –  mas com um controle muito mais intenso dos fatos. A Vale, agora atacada diretamente, sem a Samarco à sua frente como escudo, se protege o quanto pode.

Não é possível que possamos aceitar que tudo tenha se repetido sem que tenhamos aprendido nada.

Ricardo Salles já deve estar em Brumadinho. Espero que a visão que ele certamente terá diante dos seus olhos mostre o que pequenas fraudes podem causar.
Em documento revelado ontem pelo Tempo, podemos ver que a barragem que se rompeu foi beneficiada por um “esqueminha” da variação de risco. O governo Pimentel aliviou pra Vale. Facilitou os processos de aplicação das atividades mantendo o mesmo grau de risco.
Muito parecido com o processo em que nosso ministro foi condenado.
Claro que isso é passado, como são passado também as vidas perdidas. Seguir em frente é o progresso, mas em progresso também segue o anjo da história.

A gente só reza pra que não se repita, mas se repete.

 

 

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Antes de tudo, veio Mariana

nos lembrar que o progresso
da nação se constrói sobre
um piso movediço de lama

Agora, que se repete, com
mais de uma centena de vidas
arrastadas num instante,
nos lembramos que o progresso
também é feito de sangue.