Poema – Sem título

Penso, eu sei, talvez demais
talvez de modo insone
insone, não insonso,

que cada pensamento
de nasce madrugada
adentro é um respiro
de uma pouco mais
de vida nesse
apartamento

Penso, é verdade,
e talvez tanto tarde
a colocar tais ideias
no papel que elas
voam sozinhas

Vão procurar quem
pense menos
quem permita
a si os versos
feitos de uma
só vez

Assim, sem pensar
na varanda,
de tardinha

Poema – Selfie

-Ao Pessoa

Eu fico pensando quantas vezes isso foi dito
Eu, que tendo visto e lido já deveria ter calejado
Mas nunca conheci quem tenha sido surrado
Quem tenha posto os pés na lama
Ou, tendo sido humilhado, calado
É que assim como outro, antes de mim
Se não me calo é tão mais ridículo
Sim, sou eu ridículo
Usando máscaras inúteis

Parasitismo, é simples
um reles parasita em meio
um abundante e belo prado
Como um inseto encrustado
num zebu bem formado

Faz dias que não tenho dispor para um banho
Para pôr a face nas janelas
Pra ver o mundo através do sol radiante
Meus amigos, todos príncipes, tem um mundo
Limpo, lindo e de causar estupor no coração
Seu mundo não acaba, ó príncipes
E eu me pergunto, onde há gente por aqui?
Onde estão aqueles que possam admitir a própria vileza?
Todos prontos em apontar dedos e sorrir
Não eu, eu que na torpeza me resguardo
Trago apenas os sujos ao meu lado

Microconto – Noites de carnaval

Não é que diante daquele espelho ela se via. Não é que nunca tivesse olhado num espelho antes. É que se ver, isso sim era uma coisa difícil. Sentia-se finalmente plena, sozinha e sem máscaras, mas como era carnaval, vestiu logo novas e foi, deixando um bilhete para quando voltasse colado ao vidro feito de reflexos. Dizia o bilhete: Me espere voltar.
Ah, as noites de carnaval!

Diário 29-06-2020

As coisas começaram a apertar aqui em Minas. Uma reportagem do BHAZ, um popular jornal da capital anuncia que os médicos já precisam decidir “quem vive e quem morre” nos hospitais daqui. Diante dessa notícia, escrever algo parece perder o sentido, assim como todo o mais. Também o poderia dizer isso um funcionário fabril do ramo automotivo, ou um vendedor de planos dentários, ou mesmo uma enfermeira, diante da impossibilidade de salvar vidas diante dela. Aliás, era exatamente isso que a notícia mostrava, uma enfermeira demonstrando a escassez de recursos para o atendimento após a saturação do sistema de saúde.

Eles não param de trabalhar e eu também não, pois o que mais fazer?
Há alguns dias, um carro da funerária estava na minha rua buscando uma senhora que eu conhecia de vista. Ontem os vizinhos promoveram um churrasco com amigos. Mesmo quem agora se resguarda não pode considerar-se mais seguro. A despeito dos números, muitos ainda não conseguem se aperceber da realidade. A negação, dizem, é uma das etapas do luto. Espero, desde março que essa etapa acabe, mas começo a perder as esperanças.

Camus, em seu “A peste” diz o seguinte:

Teriam nossos concidadãos, pelo menos os que mais haviam sofrido com essa separação, se habituado à situação? Não seria inteiramente justa essa afirmação. Seria mais exato afirmar que, tanto moral quanto fisicamente, sofriam a com a desencarnação. No começo da peste, lembravam-se nitidamente do ente que haviam perdido e sentiam saudade. Mas, se se lembravam nitidamente do rosto amado, do seu riso, de determinado dia que agora reconheciam ter sido feliz, tinham dificuldade de imaginar o que o outro podia estar fazendo no próprio momento em que o evocavam e em lugares de agora em diante tão longínquos. Em suma, nesse momento, tinham memória, mas uma imaginação insuficiente. Na segunda fase da peste, perderam também a memória. Não que tivessem esquecido esse rosto, mas, o que vem a dar no mesmo, ele perdera a carne, já não o sentiam no interior de si próprios.

Não é segredo para ninguém que há anos somos uma nação partida, lutando por um ou outro lado da política mais mesquinha. Hoje só posso ver uma separação entre aqueles que estão sofrendo com a desencarnação e outros, que tendo negado a realidade, permanecem continuamente na segunda fase da peste, desejosos de nunca saírem dela para a realidade.

Faço novamente o apelo, fiquem em casa.

Poema – Voa

Encontrei no caminho uma ave rara
De ardente beleza e canto gentil
Como uma citara encantada
Feita ardil

Repousou ela nos meus bracos
Por tão pouco
E meus dedos, nescios
A feriram e ela
Fugiu

Chorei pedindo o retorno e ela
então cantando se despediu

“Pode, homenzinho amar
O passaro livre que por
Tão pouco tempo viu?”

Jurei que sim, esse foi o ardil
Pois a ave rara nunca mais
Pousou, e só ouço do céu o
Seu canto gentil

Poema – Eclíptica

O sol se põe todo dia e eu durmo
Eu durmo quando raia
um novo dia
Não ouço os pássaros
vejo o clarear
E as pessoas
Despertando e se
Apertando na condução

O sol nasce todo dia e eu nunca
Tenho os olhos abertos quando
Nasce o dia
E quando a sombra da morte
Passeia pelas ruas pelas
Praças e ela tem muitas
Formas
São pessoas Despertando
E se apertando na confusão

Mascaras tudo são mascaras
Sempre foram mascaras nessa
Ilusão

A ilusão da humanidade é
A fé que ilude a esperança
E o amor que se esvazia
No por do sol

E as pessoas acordam
Apertadas na condução
Despertas agora sabem
O destino é a direção

Passeia a sombra da morte
Pelas ruas pelas Praças
Um casal se despede
Por horas
As pessoas despertas
Sangram-se e mentem
É a ilusão

Não se pede mais que se saiba
Basta dizer saber essa é a nova
Mascara e as máscaras
Sempre foram a condução

A sombra da morte passeia
E ninguém mais se importa
Seguem conduzindo a morte
Que se tornou presente como
O nascer e o pôr do sol

Sorteio

Salve pessoas, essa semana teremos uma novidade. Vou sortear um livro da minha coleção para aqueles que seguirem a página no blog de hoje até sexta-feira.

A ideia aqui é fazer isso se tornar um quadro permanente com sorteios semanais ou quinzenais… veremos. Então, se vocês ainda não seguem a página do blog no Facebook, este é o momento.

A princípio, farei os sorteios de livros usados, mas com o tempo, e quem sabe, com parcerias, a gente acaba tendo umas boas surpresas.

Para os curtidores fieis que já estão lá, na sexta feira tem surpresa.

Sou racista (e você?)

Um branco dizer “sou racista” não muda nada na vida de negros que à despeito da “consciência” do primeiro, continua sofrer com todos os desmandos nem sempre arbitrários que favorecem socialmente aqueles que tem a pele clara. Por isso, este desabafo é direcionado aos leitores, se aqui houver, que sendo brancos possam pensar que não são racistas,

Esse texto é baseado em um vídeo do youtuber americano Seth Kegel, de mesmo título. Nos últimos dias, devido ao assassinato de George Floyd em Minneapolis, protestos contra o racismo explodiram nos EUA. Se vocês não estavam em marte, devem estar cientes. Aqui no Brasil, a comoção cresceu acompanhando o a escalada americana, e relembrando mortes de jovens causadas pela polícia nas favelas do Rio de Janeiro. João Pedro, Jenifer, Kauan, Kauê, Ágatha, Kethellen e há dois dias, por um ato de negligência da primeira dama de Tamandaré, a socialite Sarí Corte Real, ocorreu a morte do menino Miguel. O menino negro, filho da empregada foi deixado por descaso sozinho num elevador e acabou caindo do alto do prédio, perdendo a vida.

Mas não quero falar sobre isso. Assim como Seth disse em seu vídeo, não sou a pessoa adequada para falar sobre racismo. Existem pessoas muito melhores do que eu para tratar do tema, todas negras. Podem buscar o trabalho de pessoas como a Nataly Neri e o Chavoso da USP. São apenas dois exemplos. O que quero dizer é que nem de longe sou especialista nos dados que demonstram a violência a qual negros são submetidos diariamente pela estrutura da sociedade que vivemos, nem sei dizer por minha própria experiência como é lidar com isso. Eu só posso falar como um branco e como um branco, hesitei muito em falar por simples vergonha.

Depois desses acontecimentos, a web se encheu de protestos simbólicos de artistas e que se espalharam também pela comunidade. A tag #BlackLivesMatter se espalhou numa corrente das redes sociais ilustrada por um quadro preto no instagram, twitter e facebook. Para os organizadores de atos nos EUA, geraram um problema enorme de comunicação, já que eles usavam a tag para coordenar doações e realizar denúncias de violência policial. A “ajuda” que começou através de grandes corporações – geridas em sua maioria por brancos – saiu pela culatra. Mais vergonha.

Mas também não quero falar disso extensamente. Há influenciadores negros que vocês devem procurar. O que eu quero falar é da foto abaixo.

Esta é uma foto de um teatro do qual participei no colégio, eu devia ter uns quinze anos. Era bem grandinho. Eu sou esse cara de pé da direita com o braço apontado de forma acusatória. E estou fazendo blackface.

Não há nada que eu possa dizer, sendo um branco e tendo feito essa estupidez, que possa vir antes de um pedido de desculpas. Reconheço a infelicidade e desrespeito desse ato, assim como a culpa pela ignorância do que ele significava.

Apesar de já muito difundida, cito aqui a razão pelo qual este ato é racista, para que os leitores brancos deste blog, caso nunca tenham tido essa informação, possam aprender.

A origem da prática, que, em menor intensidade do que nos Estados Unidos, também aconteceu no Brasil, vincula-se à escravidão, e, embora sempre tenha sido vista por pessoas negras como racista, só passou a ser percebida como muito preconceituosa também pela maioria dos brancos a partir do movimento dos direitos civis na década de 1960, segundo os historiadores do tema.

— Essa foi uma das práticas que ajudaram a criar uma imagem da população negra que não só a caracterizava esteticamente de forma não bela como a ligava a práticas criminosas, numa lógica que, infelizmente, se perpetua até os dias de hoje — afirmou a professora da História da UFF Ynaê Lopes dos Santos. — Para a população negra, a prática sempre foi vista como extremamente racista. No entanto, apenas na década de 1960, quando a luta dos negros pelos direitos civis se tornou mais intensa, a prática começou a ser vista como altamente preconceituosa não só entre a população negra.

As apresentações de “blackface” eram uma das atrações dos Minstrel Shows, forma de entretenimento cômico e popular desenvolvida nos Estados Unidos de meados ao final do século XIX, em que atores brancos retratavam pessoas de ascendência africana com o objetivo de ridicularizá-las. Usando carvão, rolhas queimadas e outros produtos, os atores pintavam o rosto e partes do corpo de preto, além de realçar a boca em vermelho intenso, para satirizar lábios grossos.

Para quem queira saber mais, estes trechos foram retirados de uma matéria excelente do portal Geledés

Essa foto e o teatro foram feitos em 2009 ou 2010. Promovidos por professores bastante progressistas e o tema era justamente denunciar o racismo. Um tiro pela culatra, uma marca na minha história que prova que sou racista. Durante muito tempo eu ocultei essa foto, mas colocar o racismo debaixo de um pano não faz com que ele desapareça.

Assim, este texto, que é direcionado aos meus leitores brancos é um pedido para reflexão. O que vocês fazem para combater o racismo em suas ações cotidianas? Como o racismo, no qual nossa sociedade no educou, está presente no seu passado e na suas atitudes atuais? Você oferece espaço na sua vida para pessoas negras? Ou assume que as piadinhas dos amigos ou de personalidades da política e mídia são coisas normais?

O mais importante que eu queria trazer com esse texto, ao se posicionar de maneira antirascista na sociedade, você é capaz de realizar uma autocrítica de si e dos seus, assumindo sua parcela de responsabilidade pela estrutura racista emq ue nos encontramos, ou basta um ato mínimo como um post em redes sociais para que a síndrome de herói lhe acometa?

O branco nunca é um salvador, é um privilegiado. E isso me trás apenas vergonha.